domingo, 9 de fevereiro de 2014
O TEMPO
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
MÁRIO QUINTANA
BUMBUM E RODAS
Existe um questionamento (estúpido) que costuma surgir em qualquer conversa de botequim sobre pessoas com deficiência. ‘Qual é a pior deficiência?’ E nunca há um acordo sobre a resposta. “Imagina não enxergar nada”, diz quem ‘defende’ a deficiência visual. “Que nada. Não poder andar é o pior”, afirma quem pensa que pessoa com deficiência física é somente aquela que está sentada em uma cadeira de rodas. “Já pensou não poder ouvir as músicas que você gosta?”, esbraveja um terceiro ‘debatedor’. E ainda tem aquele que encerra a conversa com maestria. “Muito pior é ser retardado”. Essa última já ouvi de gente muito bem esclarecida, que liberta os pensamentos lá pela terceira rodada de cerveja.
Pensar em ‘melhor ou pior deficiência’ é como pensar em pior ou melhor pizza, bicicleta, almofada, shampoo, cigarro, cerveja e qualquer outra coisa.
Deficiência não é coisa.
Assim como também não é coisa o relacionamento de um usuário de cadeira de rodas com uma modelo, que gerou tanta discussão (igualmente inútil ao papo de botequim) sobre, entre outras banalidades, a vida sexual dos namorados.
Lendo tudo o que está publicado sobre isso desde semana passada, fica muito claro que a discussão girou em torno dos atributos físicos da moça e como esse usuário de cadeira de rodas, que não consegue ‘usar’ nada da cintura para baixo, faz, digamos, a parte que lhe é obrigatória.
O debate do botequim deveria ser: por que a vida íntima do casal, de qualquer casal, é importante para outra pessoa que não seja parte integrante deste casal?
Neste caso, porque insultou uma sociedade que exige a perfeição e abomina a diferença. “Como uma gata como ela pode namorar um ‘malacabado’ (como diz o sempre genial Jairo Marques) como aquele?”. Essa dúvida deve ter assombrado muitas cabecinhas ‘perfeitas’ e, obviamente, gerado toda essa onda de comentários e avaliações intelectualóides.
Fato é que, no Brasil, pessoa com deficiência não tem direito a nada. E precisa conseguir tudo no dente, na luta, na porrada. Imagine se um sujeito em uma cadeira de rodas teria paz namorando uma bela moça.
Dizer que tudo isso foi criado pelo preconceito é superficial, porque há muito mais envolvido. A imagem do casal estremeceu o ‘mundo macho’. Tirou do eixo quem não admite a união do ‘estragado’ com qualquer beleza. E como as redes sociais nos permitem expressar nossas mais obscuras opiniões, houve uma avalanche de reprovações.
Estamos muito atrasados no que diz respeito a tudo que envolve pessoas com deficiência. Educação, trabalho, cultura, saúde, laser, oportunidade para exercer a cidadania plena e, principalmente, ter liberdade para comandar a própria vida.
É ainda mais estúpido que esse cerceamento atinja quem não é pessoa com deficiência, mas faz parte, por livre escolha, por amor, da vida de alguém que tem essa característica. É totalmente contrário à evolução. Agride brutalmente a civilidade.
Sentimento verdadeiro não é coisa. Não precisa de aprovação pública. Ultrapassa os limites do corpo sem esforço. E, felizmente, cria um escudo poderoso contra a estupidez.
Ruim é lembrar que essa estupidez ainda faz com que muitas pessoas com deficiência estejam encarceradas, trancafiadas e isoladas, sejam negligenciadas, sub-utilizadas, humilhadas. Perde o País, que se recusa a permitir que cidadãos produtivos sejam, vejam só, cidadãos
Luis Alexandre Ventura
PARA QUE SERVE A CELEBRIDADE?
Quero começar com uma nota sobre a celebrização como um problema e como um valor. A última besteira aprontada pelo jovem cantor Justin Bieber, que minhas netas mais novas idolatram (ou idolatravam), ajuda e, intrigantemente, coincide com o que elaborei na semana passada sobre esse tema.
Uma sociologia da modernidade avançada, globalizada e marcada pelo hiperconsumo não pode deixar de meditar sobre a celebrização e o sucesso como paradoxos. Pois como distinguir e buscar a fama que inevitavelmente leva as pessoas para cima ou para baixo numa sociedade fundada num individualismo igualitário que horizontaliza?
Deste ponto de vista, a celebrização trás à tona a hierarquia (ou um centro desejado) como um valor implícito ou até mesmo envergonhado num sistema que idealizadamente se pensa como descentralizado porque é feito de iguais. A celebrização revela também como o sistema oscila entre a ênfase no individual (ou nas suas peças ou partes) e em como essas partes se relacionam entre si, formando um tecido ou uma totalidade. A regra é salientar a parte, mas a celebrização não nos deixa esquecer o todo. Talvez essa seja sua principal função e ela está contida na pergunta: por que ele (ou ela) e não eu?
Não se trata, como bem viu Tocqueville, de achar que o regime igualitário suprima a excelência ou a singularidade extraordinária que dimensionam o ideal da aristocracia; mas de ter suficiente lucidez para compreender que a igualdade não suprime a gradação; e que a ênfase no indivíduo ou na parte não acabam com o todo. O número um em alguma esfera das artes não liquida os elos entre as pessoas. As coletividades humanas são reconhecidamente humanas justamente porque preservam essas dimensões.
Há o momento da celebrização e o momento em que ela, como o Justin Bieber condenado, revela o jovenzinho banal, igualzinho aos nossos filhos e netos.
Num mundo igualitário, o processo de celebrização legitima a crença de que todos são iguais e alguns se diferenciam pelo talento. É o caso específico do esporte e das artes musicais e cênicas, mas isso não exclui paternalismos, favores, preferências e familismos que marcam todos os campos, sobretudo o do poder.
O que chama a atenção hoje em dia, é o acasalamento às vezes patológico entre uma hiperdistinção (caso de alguns astros da música popular e do esporte) e uma espécie de autoflagelação por meio do uso abusivo da liberdade. Um menino que fica milionário aos 15 anos e vive numa sociedade que lhe garante o espaço de ser feliz a seu modo, corre o risco de ser engolido e, eventualmente, morto pelo seu tão desejado sucesso!
Como naquela famosa capa do New Yorker, comentada nesta coluna, na qual os Oscars comiam como sobremesa os artistas premiados. Afinal, se os cavalos não são domados, eles acabam nos guiando.
Para que serve então a celebridade? Ela agencia uma diferenciação num mundo que se deseja construído de iguais. Os seus perigos são claros: toda pessoa célebre tem uma superespecialização que se confunde com um dom. O famoso é a tela na qual as pessoas comuns projetam o que lhes falta. Os mitos das celebridades insistem em dizer como eles foram pessoas simples e pobres antes de obterem a tão desejada fama. O astro é, entre outras coisas, um especialista no que faz e um modelo do que faz. Daí a tendência a confundir o seu papel público com a sua intimidade. A suposição de uma excepcionalidade em tudo se desfaz e decepciona quando ocorre um desvio entre a figura que aparece no palco e a figura que surge - bêbado, burro, arrogante, desonesto, corrupto e, acima de tudo, infeliz como todo mundo - na vida real. Isso é acentuado pela nossa busca de coerência, a qual inventou sua tecnologia.
Do outro lado do universo das celebrizações para cima, há o conjunto de empregados e de inferiores que congrega as "celebridades para baixo". Os garçons, engraxates, motoristas, porteiros e empregados em geral, que fazem a nossa comida, lavam a nossa roupa, vigiam nosso lar e nos protegem do mundo. Esses fornecedores de amor, atenção e carinho preenchem um espaço que não ocupamos e passam a impressão de que vivem apenas para o que fazem. Para muitos, ver a empregada namorando é tão surpreendente quanto descobrir que a sua celebridade favorita tem um péssimo caráter.
Esse time de empregados: secretários, assessores e subdiretores que, na política, se desculpam pelos seus superiores, quando a Fifa ou Comitê Olímpico Internacional ou uma chuvarada revela como nada está pronto e há um atraso crônico e insuportável na infraestrutura nacional.
No Brasil, as autoridades não pedem desculpas. No máximo, elas dão desculpas por meio dos seus "segundos" ou asseclas. As obras que jamais ficam prontas em tempo e o cara de pau ministro diz que as empreiteiras precisam ser mais responsáveis. Mas quem contrata essas empresas?
Se as celebridades não podem ser escusadas dos seus delitos, o mesmo deve ocorrer com a autoridade que, na maioria dos casos, lamentavelmente se torna uma celebridade pelo que não fez; ou, pior que isso, pela sua inestimável contribuição ao atraso do País.
Roberto DaMatta.
Uma sociologia da modernidade avançada, globalizada e marcada pelo hiperconsumo não pode deixar de meditar sobre a celebrização e o sucesso como paradoxos. Pois como distinguir e buscar a fama que inevitavelmente leva as pessoas para cima ou para baixo numa sociedade fundada num individualismo igualitário que horizontaliza?
Deste ponto de vista, a celebrização trás à tona a hierarquia (ou um centro desejado) como um valor implícito ou até mesmo envergonhado num sistema que idealizadamente se pensa como descentralizado porque é feito de iguais. A celebrização revela também como o sistema oscila entre a ênfase no individual (ou nas suas peças ou partes) e em como essas partes se relacionam entre si, formando um tecido ou uma totalidade. A regra é salientar a parte, mas a celebrização não nos deixa esquecer o todo. Talvez essa seja sua principal função e ela está contida na pergunta: por que ele (ou ela) e não eu?
Não se trata, como bem viu Tocqueville, de achar que o regime igualitário suprima a excelência ou a singularidade extraordinária que dimensionam o ideal da aristocracia; mas de ter suficiente lucidez para compreender que a igualdade não suprime a gradação; e que a ênfase no indivíduo ou na parte não acabam com o todo. O número um em alguma esfera das artes não liquida os elos entre as pessoas. As coletividades humanas são reconhecidamente humanas justamente porque preservam essas dimensões.
Há o momento da celebrização e o momento em que ela, como o Justin Bieber condenado, revela o jovenzinho banal, igualzinho aos nossos filhos e netos.
Num mundo igualitário, o processo de celebrização legitima a crença de que todos são iguais e alguns se diferenciam pelo talento. É o caso específico do esporte e das artes musicais e cênicas, mas isso não exclui paternalismos, favores, preferências e familismos que marcam todos os campos, sobretudo o do poder.
O que chama a atenção hoje em dia, é o acasalamento às vezes patológico entre uma hiperdistinção (caso de alguns astros da música popular e do esporte) e uma espécie de autoflagelação por meio do uso abusivo da liberdade. Um menino que fica milionário aos 15 anos e vive numa sociedade que lhe garante o espaço de ser feliz a seu modo, corre o risco de ser engolido e, eventualmente, morto pelo seu tão desejado sucesso!
Como naquela famosa capa do New Yorker, comentada nesta coluna, na qual os Oscars comiam como sobremesa os artistas premiados. Afinal, se os cavalos não são domados, eles acabam nos guiando.
Para que serve então a celebridade? Ela agencia uma diferenciação num mundo que se deseja construído de iguais. Os seus perigos são claros: toda pessoa célebre tem uma superespecialização que se confunde com um dom. O famoso é a tela na qual as pessoas comuns projetam o que lhes falta. Os mitos das celebridades insistem em dizer como eles foram pessoas simples e pobres antes de obterem a tão desejada fama. O astro é, entre outras coisas, um especialista no que faz e um modelo do que faz. Daí a tendência a confundir o seu papel público com a sua intimidade. A suposição de uma excepcionalidade em tudo se desfaz e decepciona quando ocorre um desvio entre a figura que aparece no palco e a figura que surge - bêbado, burro, arrogante, desonesto, corrupto e, acima de tudo, infeliz como todo mundo - na vida real. Isso é acentuado pela nossa busca de coerência, a qual inventou sua tecnologia.
Do outro lado do universo das celebrizações para cima, há o conjunto de empregados e de inferiores que congrega as "celebridades para baixo". Os garçons, engraxates, motoristas, porteiros e empregados em geral, que fazem a nossa comida, lavam a nossa roupa, vigiam nosso lar e nos protegem do mundo. Esses fornecedores de amor, atenção e carinho preenchem um espaço que não ocupamos e passam a impressão de que vivem apenas para o que fazem. Para muitos, ver a empregada namorando é tão surpreendente quanto descobrir que a sua celebridade favorita tem um péssimo caráter.
Esse time de empregados: secretários, assessores e subdiretores que, na política, se desculpam pelos seus superiores, quando a Fifa ou Comitê Olímpico Internacional ou uma chuvarada revela como nada está pronto e há um atraso crônico e insuportável na infraestrutura nacional.
No Brasil, as autoridades não pedem desculpas. No máximo, elas dão desculpas por meio dos seus "segundos" ou asseclas. As obras que jamais ficam prontas em tempo e o cara de pau ministro diz que as empreiteiras precisam ser mais responsáveis. Mas quem contrata essas empresas?
Se as celebridades não podem ser escusadas dos seus delitos, o mesmo deve ocorrer com a autoridade que, na maioria dos casos, lamentavelmente se torna uma celebridade pelo que não fez; ou, pior que isso, pela sua inestimável contribuição ao atraso do País.
Roberto DaMatta.
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