domingo, 20 de outubro de 2013

A FORMAÇÃO DE UM POVO

 A formação de um povo pode ser olhada sob vários aspectos. Aqui eu falo da formação cultural, informação, crescimento, consciência dos direitos e deveres de quem vive numa democracia verdadeira, que se interesse por um povo formado e informado.

Aqui entra primariamente a educação, que venho comentando sem conseguir esgotar, assunto inexaurível na vida privada de todo cidadão e na existência geral de um povo. É preciso ter em mente que, para os líderes, sejam quais forem, esse deve ser um interesse primordial em sua atividade.

A mim me preocupa a redução do nível de formação e informação que nos oferecem. Escrevi muito sobre as cotas, com que, em lugar de melhorar a educação pela base, subindo o nível do precário ensino elementar, se reduz o nível do ensino superior, para que se adapte aos que lá entram mais por cota do que por mérito e preparo, em lugar de ser, como deveria, o inverso.

Com isso, nosso ensino superior, já tão carente e ruim, com algumas gloriosas exceções, piora ainda mais. Vejam-se os dados assustadores de reprovação, no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, de candidatos saídos dos nossos cursos de direito.

Os exames de igual caráter para egressos de cursos de medicina ainda não apresentam resultado tão incrivelmente ruim, mas começam a nos deixar alertas pois esses médicos vão lidar com o nosso corpo, a nossa vida.

Estudantes de letras frequentemente nem sabem ortografia, e mais: não conseguem se expressar por escrito, não têm pensamento claro e seguro, não foram habituados, desde cedo, a argumentar, a pensar, a analisar, a discernir, a ler e a escrever.

Agora, pelo que leio, parece que vão conseguir piorar ainda mais a situação, pois a meninada só precisa se alfabetizar no fim do 3º ano da escola elementar. Pergunto: o que estarão fazendo nos primeiros dois anos de escola? Brincando? Gazeteando? A escola vai fingir que está ensinando, preparando para a vida e a profissão? E os pais que se interessam, o que podem esperar de tal ensino?

Aos 8 anos, meninos e meninas já deveriam estar escrevendo direito e lendo bastante — claro que em escolas públicas de qualquer ponto do país onde os governos tivessem colocado professores bem pagos, seguros e com boa autoestima em escolas nas quais cada sala de aula tenha uma prateleira com livros doados pelos respectivos governos, municipal, estadual ou federal, interessados na formação do seu povo.

Qualquer coisa diferente disso é ilusão pura. Não resolve enviar centenas de jovens ao exterior ou trazer estudantes estrangeiros para cá, se a base primeira do ensino é ruim como a nossa, pois não adianta um telhado de luxo sobre paredes rachadas em casas construídas sobre areia movediça.

Como não adianta dar comida a quem precisaria logo a seguir de estudo e trabalho que proporcionasse crescimento real, projetos e horizontes em lugar da dependência de meninos que não conseguem largar o peito materno mesmo passada a idade adequada.

O que vai acontecer? Com certeza vai se abrir e aprofundar mais o fosso entre alunos saídos de escolas particulares que ainda consigam manter um nível e objetivo de excelência e a imensa maioria daqueles saídos de escolas públicas ou mesmo privadas em que o rebaixamento de nível se instalar.

Grandes e pequenas empresas e indústrias carecem de mão de obra especializada e boa, milhares de vagas oferecidas não são preenchidas porque não há mão de obra preparada: imaginem se a alfabetização for concluída no fim do 3o ano elementar, quando os alunos tiverem já 8 anos, talvez mais, quando e como serão preparados?

Com que idade estarão prontos para um mercado de trabalho cada vez mais exigente? Ou a exigência também vai cair e teremos mais edifícios e outras obras mal construídos, serviços deixando a desejar, nossa excelência cada vez mais reduzida?


Não sei se somos um povo cordial: receio que sejamos desinteressados, mal orientados e conformados, achando que é só isso que merecemos. Ou nem pensando no assunto.

LYA LUFT

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

CÃO

Cão 'prevê' ataques epiléticos de menina na Irlanda


A mãe de Brianna diz que Charlie é muito protetor e nunca sai do lado da menina
Uma família irlandesa alega que seu cão de estimação está ajudando a cuidar de sua filha de três anos, chamando a atenção dos pais quando a menina está prestes a ter um ataque epilético.
A família Lynch acredita que seu dogue alemão, Charlie, pode perceber mudanças em sua filha - Brianna sofre de epilepsia desde que nasceu - até 20 minutos antes que ela tenha uma crise.
Segundo a família, Charlie os alerta andando em círculos em torno de Brianna. Ele também gentilmente a encosta contra uma parede para impedi-la de cair durante um ataque.
A epilepsia pode levar a convulsões traumáticas, como um estado de transe profundo, ou convulsões violentas, durante as quais ela corre o risco de cair e bater a cabeça.
Não há provas científicas de que cães possam detectar esse mal, mas instituições britânicas já treinam os animais para identificar problemas de saúde em humanos.
A mãe de Brianna, Arabella Scanlan, disse que Charlie não é treinado como um "cão de alerta para um ataque epilético" - é um animal de estimação comum, que ela crê ter desenvolvido instintivamente uma habilidade especial.
Padrão de comportamento
A família notou a habilidade de Charlie anos atrás, quando o enorme dogue alemão começou a ficar agitado e andar em círculos em torno Brianna, e minutos depois ela teve um ataque epilético.
A mãe disse que começou a perceber um padrão de comportamento, percebendo que a agitação do cachorro comumente aumentava antes de um ataque.
"Eu fui para o quintal um dia e ela (Brianna) estava tendo uma convulsão. Estava encostada na parede, inclinada sobre (o cachorro), que olhava para mim como se dissesse: 'Eu não sei o que fazer'. Mas ele ficou ao lado dela, não se moveu", lembra Scanlan.
Ela conta que, desde então, o cão raramente sai do lado de Brianna e a encosta contra alguma superfície se sente que ela está prestes a convulsionar.
"Realmente não entendo a psicologia por trás disso, mas as pessoas ficam hipnotizadas quando o veem em ação. Realmente emociona vê-los juntos", acrescentou.
Estudos científicos têm demonstrado que alguns cães podem ser treinados para "farejar" cânceres e detectar baixos níveis de açúcar no sangue em pacientes diabéticos, mas até o momento não há nenhuma prova científica conclusiva de que os caninos tenham capacidade de prever ataques epiléticos em humanos.
Ao mesmo tempo, instituições de caridade na Grã-Bretanha treinam cães para ajudar pessoas com diversos problemas de saúde.
A instituição Support Dogs treina "cães que alertam sobre convulsões" e alega que um animal treinado pode "dar entre 10 e 55 minutos de aviso prévio sobre um iminente ataque".
A executiva-chefe da Medical Dection Dogs, Claire Guest, tem experiência pessoal sobre a capacidade dos animais em detectar doenças graves.
Ela disse que estava ensinando cães a reconhecer tipos de câncer quando um deles "começou a chamar sua atenção". Posteriormente, ela descobriu que tinha um câncer de mama em estágio inicial.
Guest lembra, porém, que ainda não está claro como alguns cães poderiam prever ataques epiléticos. Ela acha que a habilidade poderia ser desencadeada pelo cheiro, mas os cães podem também estar respondendo a sinais visuais.
'Capacidade inata'
Vale destacar que nem todos os cães compartilham da habilidade de detectar doenças e enfermidades.
Guest disse essa capacidade é geralmente encontrada em cães altamente expressivos, atenciosos em relação aos humanos e que mostram uma preocupação geral em proteger seus donos.
Ela acrescentou que a maioria dos estudos científicos a respeito do tema foi inicialmente provocada por relatos de donos de animais que observaram um padrão de comportamento em seus cães. Mas crê que mais pesquisas são necessárias.
Em 2003, os resultados de um estudo preliminar divulgado na publicação científica Seizure, European Journal of Epilepsy sugeriram que "alguns cães têm capacidade natural para alertar e/ou responder a ataques epiléticos".
O estudo acrescentou que o sucesso desses cães "depende, em grande parte, da consciência e da resposta do dono ao comportamento de alerta do cachorro".

domingo, 13 de outubro de 2013

PROSOPAGNOSIA

Como vive quem não consegue memorizar nenhum rosto

Portador do transtorno enxerga perfeitamente, mas não consegue reconhecer ou identificar rostos
Imagine do dia para a noite não conseguir mais reconhecer seus pais, filhos ou parentes mais próximos. Você pode vê-los, mas não sabe quem são, nem se estão rindo ou franzindo a testa. Foi o que aconteceu com o britânico David Bromley. Após sofrer uma lesão no cérebro, ele passou a apresentar um transtorno pouco conhecido, a 'cegueira de feições'.
Bromley, de 67 anos, convive com a desordem, cujo nome verdadeiro é prosopagnosia, desde os 11 anos. As pessoas com esse problema enxergam, mas são incapazes de identificar rostos. Ou seja, veem olhos, nariz e boca, mas não reconhecem nem a si mesmos nem a seus interlocutores, bem como gestos ou emoções.
"Eu posso reconhecer minha esposa se eu for para casa, pois parto do pressuposto de que será ela quem estará lá. Mas se a encontrar na rua por acaso, não vou reconhecê-la", disse ele à BBC.
Segundo médicos, a ‘cegueira de feições’ afeta milhares de pessoas no mundo que, no entanto, não sabem que são portadoras do transtorno.
"Descobri que tinha esse problema quando fui a um encontro de amigos que não via há 30 anos. Dois deles tinham sido meus melhores amigos, fomos juntos a todos os festivais de música, viajamos juntos para a Espanha para trabalhar no verão. Éramos muito próximos, mas acabamos nos afastando pelos rumos diferentes que cada um tomou", conta Bromley.
Naquela ocasião, o britânico já estava se recuperando da lesão que havia sofrido no cérebro e pensava que a única sequela do acidente era a perda parcial de sua visão, que o impossibilitava de dirigir. Por essa razão, Bromley foi acompanhado do irmão ao encontro. A surpresa veio durante a conversa dentro do carro de volta para casa.
"Quando estávamos retornando, lembro que disse a meu irmão: 'Frank e Miky não mudaram nada, continuam exatamente os mesmos’, para logo em seguida, lhe perguntar: ‘Os dois estavam vestidos com teentops, não?' (espécie de suéter que esteve na moda nos anos 70)"
O que Bromley estava vendo, na verdade, era a memória que tinha de seus amigos daquela época. "Meu cérebro estava me dizendo que Frank e Miky estavam ali, mas a imagem que eu tinha deles não correspondia à realidade".
"Foi então que descobri que tinha cegueira para feições".
Congênita e adquirida
Segundo a literatura médica, existem dois tipos de prosopagnosia: uma congênita, na qual a pessoa já nasce com o transtorno e outra adquirida, que ocorre normalmente após algum tipo de dano cerebral.
Estima-se que 2% da população mundial apresentam o primeiro tipo do transtorno. No Brasil, estudos mostram que pelo menos 5 milhões de pessoas sofrem da desordem.
Mas Bromley faz parte do segundo grupo, que é raro.
"Esse segundo tipo é extremamente raro, já que a região do cérebro afetada é muito específica", explica à BBC Ashok Jansari, especialista no transtorno e professor de Neuropsicologia Cognitiva da Faculdade de Psicologia da Universidade do Leste de Londres.
"Estávamos de férias em Cuba. Um dia eu comecei a conversar com um homem da Dinamarca , quando uma mulher se aproximou de nós e disse 'Bom dia' , ao que eu respondi 'Olá, prazer em conhecê-la, pensando se tratar da esposa do dinamarquês, quando, na verdade, era a minha "
David Bromley, que sofre de 'cegueira para feições'
"A verdade é que eu não sei o que é pior: nunca ser capaz de reconhecer as pessoas ou parar de reconhecê-las aos 56 anos, como aconteceu comigo", questiona-se Bromley, para quem a doença é um constrangimento social.
"Estávamos de férias em Cuba. Um dia eu comecei a conversar com um homem da Dinamarca , quando uma mulher se aproximou e disse 'Bom dia' , ao que eu respondi 'Olá, prazer em conhecê-la, pensando se tratar da esposa do dinamarquês, quando, na verdade, era a minha", conta Bromley.
Situações como essas já se tornaram frequentes em sua vida. "Em outra ocasião, estava em uma piscina quando vi uma mulher loira em uma jacuzzi. Assobiei pensando que era minha esposa, quando, de repente, ouvi uma voz atrás de mim: 'David, o que você está fazendo?' Eu estava assobiando para a mulher errada."
Bromley não é cego. O problema acontece quando ele volta a cruzar com uma pessoa 10 ou 15 minutos depois de conhecê-la.
"Uma vez participei de uma reunião para um grande projeto. Tudo correu tranquilamente até que depois da reunião, fui ao encontro de outro cliente que trabalhava para a mesma empresa e com quem queria fechar um negócio. Ele me convidou para tomar um café quando um outro homem chegou e nos abordou. Eu lhe disse: 'Prazer em conhecê-lo'. A resposta dele foi: 'Mas nós nos vimos há 10 minutos na reunião!'".
Vergonha social
Desde então, Bromley se vê obrigado a explicar seu problema: "Toda vez que vou ver um cliente, digo que tive uma lesão cerebral que me deixou incapaz de reconhecer rostos e adianto que, se ignorá-los, não estou sendo hostil."
Esse tipo de constrangimento social também afeta a britânica Sandra, que não quis ser identificada na reportagem. Há 14 anos, ela teve uma encefalite (infecção no cérebro) que evoluiu para uma cegueira de feições.
Embora ela tenha desenvolvido uma versão mais branda da prosopagnosia, uma vez que pode reconhecer pessoas que conhecia antes de ter a desordem, prefere evitar o contato com elas.
"A vida com prosopagnosia é muito constrangedora, porque as pessoas me cumprimentam e eu não sei quem elas são. Caso seja alguém que esteja em seu local de trabalho (como o açougueiro ou o padeiro), posso adivinhar quem são. Mas se estão fora de contexto, não consigo reconhecê-las", conta ela à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Sandra dá aulas em uma escola, mas seus alunos não sabem de sua doença. "Se eu vir alguém todos os dias, posso reconhecê-lo. Mas se eu encontrar um dos alunos na rua e ele me cumprimentar, posso inferir que se trata de uma criança da escola, mas não necessariamente sei quem é."
"Eu não digo nada a meus alunos, tento fazer um esforço para memorizar seus rostos", acrescenta .
Especialistas entendem as frustrações de Bromley e Sandra. "Não reconhecer as pessoas pode causar um constrangimento social", diz Jansari, que acompanhou o caso dos dois britânicos.
"Hipoteticamente, se alguém tem prosopagnosia mas não sabe, e seu trabalho exige o reconhecimento de pessoas (como no caso de um guarda de segurança), então eles podem estar em maus lençóis. Mas duvido que esse tipo de situação ocorra, pois quem tem esse transtorno, mesmo sem saber, provavelmente vai dizer aos outros que "não é muito bom" em reconhecer rostos", explica o especialista.
No entanto, Jansari relata casos em que a pessoa teve de deixar o emprego por causa da doença. "Um exemplo aconteceu com um professor que estava tendo dificuldade em reconhecer seus alunos, o que estava causando problemas quando tinha de adverti-los".
Deficiência?
Cinco coisas que você precisa saber sobre a prosopagnosia
"Prosopagnosia " vem das palavras gregas "prospon" (cara) e "agnosia" (inabilidade de reconhecer).
A prosopagnosia congênita ou verificada na primeira infância é chamada de "prosopagnosia desenvolvimental". Nesses casos, normalmente, não há uma causa médica conhecida.
O transtorno também pode ocorrer como resultado de uma lesão cerebral. Nesse caso, é chamada de "prosopagnosia adquirida".
Os pesquisadores sugerem que a prosopagnosia desenvolvimental pode ter herança genética.
Especialistas acreditam que uma parte específica do cérebro está envolvida no processamento e reconhecimento facial. Essa região é chamada "área fusiforme da face".
Fonte: Universidade do Leste de Londres
Colegas de trabalho de Sandra sabiam que algo estava errado com ela. "Mas agora a maioria dessas pessoas já saiu e há pessoas novas que não sabem do meu problema."
"A razão pela qual não falo da minha doença não tem a ver com o fato de as pessoas pensarem que eu não sou capaz de realizar meu trabalho. Eu não quero me sentir envergonhada ou que elas pensem que há algo de errado comigo."
Enquanto a prosopagnosia não é reconhecida como uma doença, Jansari defende que alguns casos deveriam ser tratados como tal.
A enfermidade não tem cura. "No caso da adquirida, uma vez que a parte danificada do cérebro não vai se recuperar, é impossível curar o problema", diz o especialista .
"Mas ainda não sabemos o que causa a prosopagnosia congênita. Mas, hipoteticamente, no futuro, se eles descobrirem que a causa é genética, isso talvez possa ser corrigido.”
Para os que sofrem prosopagnosia, só resta uma coisa a fazer: melhorar suas estratégias para reconhecer as pessoas.
"Se eu for às compras com a minha mulher, tento memorizar a jaqueta que ela está usando. Então, se eu vir alguém com uma jaqueta amarela e cabelos loiros, sei que se trata da minha esposa", diz Bromley.
O esforço que David depreende em estudar o rosto das pessoas que só vê uma vez fez com que ele passasse por um constrangimento certa vez em uma entrevista de emprego.
"O entrevistador me disse que eu o estava olhando como se fosse um serial killer".
"Às vezes estudo o rosto das pessoas com tamanha intensidade que pode parecer intimidador. Tento encontrar uma característica de cada um, como uma cicatriz ou a cor dos cabelos, para poder me lembrar depois com quem conversei", acrescenta.
Mas essa estratégia não é 100% eficaz.
Jansari, da Universidade do Leste de Londres, conta que, mesmo que David tente observar tudo noss mínimos detalhes, incluindo a linguagem corporal, viu certa vez uma foto de quem pensava ser o cantor George Michael "quando, na verdade, era minha, da época em que eu tinha barba comprida e usava brinco de ouro".
"É muito angustiante", confessa David. "Todo o tempo eu tenho que me concentrar em pessoas e lugares, porque (a doença ) também afeta a minha percepção geográfica ".
"Preciso melhorar minhas estratégias de reconhecimento", diz ele.

GERAÇÃO DO DIPLOMA

Geração do diploma' lota faculdades, mas decepciona empresários

Ruth Costas
Da BBC Brasil 

Número de instituições de ensino superior mais que dobrou desde 2001
Nunca tantos brasileiros chegaram às salas de aula das universidades, fizeram pós-graduação ou MBAs. Mas, ao mesmo tempo, não só as empresas reclamam da oferta e qualidade da mão-de-obra no país como os índices de produtividade do trabalhador custam a aumentar.
Na última década, o número de matrículas no ensino superior no Brasil dobrou, embora ainda fique bem aquém dos níveis dos países desenvolvidos e alguns emergentes. Só entre 2011 e 2012, por exemplo, 867 mil brasileiros receberam um diploma, segundo a mais recente Pesquisa Nacional de Domicílio (Pnad) do IBGE.
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“Mas mesmo com essa expansão, na indústria de transformação, por exemplo, tivemos um aumento de produtividade de apenas 1,1% entre 2001 e 2012, enquanto o salário médio dos trabalhadores subiu 169% (em dólares)", diz Rafael Lucchesi, diretor de educação e tecnologia na Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A decepção do mercado com o que já está sendo chamado de "geração do diploma" é confirmada por especialistas, organizações empresariais e consultores de recursos humanos.
"Os empresários não querem canudo. Querem capacidade de dar respostas e de apreender coisas novas. E quando testam isso nos candidatos, rejeitam a maioria", diz o sociólogo e especialista em relações do trabalho da Faculdade de Economia e Administração da USP, José Pastore.
Entre empresários, já são lugar-comum relatos de administradores recém-formados que não sabem escrever um relatório ou fazer um orçamento, arquitetos que não conseguem resolver equações simples ou estagiários que ignoram as regras básicas da linguagem ou têm dificuldades de se adaptar às regras de ambientes corporativos.
"Cadastramos e avaliamos cerca de 770 mil jovens e ainda assim não conseguimos encontrar candidatos suficientes com perfis adequados para preencher todas as nossas 5 mil vagas", diz Maíra Habimorad, vice-presidente do DMRH, grupo do qual faz parte a Companhia de Talentos, uma empresa de recrutamento. "Surpreendentemente, terminanos com vagas em aberto."
Outro exemplo de descompasso entre as necessidades do mercado e os predicados de quem consegue um diploma no Brasil é um estudo feito pelo grupo de Recursos Humanos Manpower. De 38 países pesquisados, o Brasil é o segundo mercado em que as empresas têm mais dificuldade para encontrar talentos, atrás apenas do Japão.
É claro que, em parte, isso se deve ao aquecimento do mercado de trabalho brasileiro. Apesar da desaceleração da economia, os níveis de desemprego já caíram para baixo dos 6% e têm quebrado sucessivos recordes de baixa.
 Linha de montagem da Ford (Foto BBC)
Produtividade da industria aumentou apenas 1,1% na última década, segundo a CNI
Mas segundo um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) divulgado nesta semana, os brasileiros com mais de 11 anos de estudo formariam 50% desse contingente de desempregados.
"Mesmo com essa expansão do ensino e maior acesso ao curso superior, os trabalhadores brasileiros não estão conseguindo oferecer o conhecimento específico que as boas posições requerem", explica Márcia Almstrom, do grupo Manpower.
Causas
Especialistas consultados pela BBC Brasil apontam três causas principais para a decepção com a "geração do diploma".
A principal delas estaria relacionada a qualidade do ensino e habilidades dos alunos que se formam em algumas faculdades e universidades do país.
Os números de novos estabelecimentos do tipo criadas nos últimos anos mostra como os empresários consideram esse setor promissor. Em 2000, o Brasil tinha pouco mais de mil instituições de ensino superior. Hoje são 2.416, sendo 2.112 particulares.
"Ocorre que a explosão de escolas superiores não foi acompanhada pela melhoria da qualidade. A grande maioria das novas faculdades é ruim", diz Pastore.
Tristan McCowan, professor de educação e desenvolvimento da Universidade de Londres, concorda. Há mais de uma década, McCowan estuda o sistema educacional brasileiro e, para ele, alguns desses cursos universitários talvez nem pudessem ser classificados como tal.
“São mais uma extensão do ensino fundamental", diz McCowan. "E o problema é que trazem muito pouco para a sociedade: não aumentam a capacidade de inovação da economia, não impulsionam sua produtividade e acabam ajudando a perpetuar uma situação de desigualdade, já que continua a ser vedado à população de baixa renda o acesso a cursos de maior prestígio e qualidade."
Para se ter a medida do desafio que o Brasil têm pela frente para expandir a qualidade de seu ensino superior, basta lembrar que o índice de anafalbetismo funcional entre universitários brasileiros chega a 38%, segundo o Instituto Paulo Montenegro (IPM), vinculado ao Ibope.
 Estudantes (Foto BBC)
Especialistas questionam qualidade de novas faculdades no Brasil
Na prática, isso significa que quatro em cada dez universitários no país até sabem ler textos simples, mas são incapazes de interpretar e associar informações. Também não conseguem analisar tabelas, mapas e gráficos ou mesmo fazer contas um pouco mais complexas.
De 2001 a 2011, a porcentagem de universitários plenamente alfabetizados caiu 14 pontos - de 76%, em 2001, para 62%, em 2011. "E os resultados das próximas pesquisas devem confirmar essa tendência de queda", prevê Ana Lúcia Lima, diretora-executiva do IPM.
Segundo Lima, tal fenômeno em parte reflete o fato da expansão do ensino superior no Brasil ser um processo relativamente recente e estar levando para bancos universitários jovens que não só tiveram um ensino básico de má qualidade como também viveram em um ambiente familiar que contribuiu pouco para sua aprendizagem.
"Além disso, muitas instituições de ensino superior privadas acabaram adotando exigências mais baixas para o ingresso e a aprovação em seus cursos", diz ela. "E como consequência, acabamos criando uma escolaridade no papel que não corresponde ao nível real de escolaridade dos brasileiros."
Postura e experiência
A segunda razão apontada para a decepção com a geração de diplomados estaria ligada a “problemas de postura” e falta de experiência de parte dos profissionais no mercado.
“Muitos jovens têm vivência acadêmica, mas não conseguem se posicionar em uma empresa, respeitar diferenças, lidar com hierarquia ou com uma figura de autoridade”, diz Marcus Soares, professor do Insper especialista em gestão de pessoas.
“Entre os que se formam em universidades mais renomadas também há certa ansiedade para conseguir um posto que faça jus a seu diploma. Às vezes o estagiário entra na empresa já querendo ser diretor.”
As empresas, assim, estão tendo de se adaptar ao desafio de lidar com as expectativas e o perfil dos novos profissionais do mercado – e em um contexto de baixo desemprego, reter bons quadros pode ser complicado.
Para Marcelo Cuellar, da consultoria de recursos humanos Michael Page, a falta de experiência é, de certa forma natural, em função do recente ciclo de expansão econômica brasileira.
"Tivemos um boom econômico após um período de relativa estagnação, em que não havia tanta demanda por certos tipos de trabalhos. Nesse contexto, a escassez de profissionais experientes de determinadas áreas é um problema que não pode ser resolvido de uma hora para outra", diz Cuellar.
Nos últimos anos, muitos engenheiros acabaram trabalhando no setor financeiro, por exemplo.
"Não dá para esperar que, agora, seja fácil encontrar engenheiros com dez ou quinze anos de experiência em sua área – e é em parte dessa escassez que vem a percepção dos empresários de que ‘não tem ninguém bom’ no mercado", acredita o consultor.
'Tradição baicharelesca'
Por fim, a terceira razão apresentada por especialistas para explicar a decepção com a “geração do diploma” estaria ligada a um desalinhamento entre o foco dos cursos mais procurados e as necessidades do mercado.
"É bastante disseminada no Brasil a ideia de que cargos de gestão pagam bem e cargos técnicos pagam mal. Mas isso está mudando – até porque a demanda por profissionais da área técnica tem impulsionado os seus salários."
Gabriel Rico
De um lado, há quem critique o fato de que a maioria dos estudantes brasileiros tende a seguir carreiras das ciências humanas ou ciências sociais - como administração, direito ou pedagogia - enquanto a proporção dos que estudam ciências exatas é pequena se comparada a países asiáticos ou alguns europeus.
“O Brasil precisa de mais engenheiros, matemáticos, químicos ou especialistas em bioquímica, por exemplo, e os esforços para ampliar o número de especialistas nessas áreas ainda são insuficientes”, diz o diretor-executivo da Câmara Americana de Comércio (Amcham), Gabriel Rico.
Segundo Rico, as consequências dessas deficiências são claras: “Em 2011 o país conseguiu atrair importantes centros de desenvolvimento e pesquisas de empresas como a GE a IBM e a Boeing”, ele exemplifica. “Mas se não há profissionais para impulsionar esses projetos a tendência é que eles percam relevância dentro das empresas.”
Do outro lado, também há críticas ao que alguns vêem como um excesso de valorização do ensino superior em detrimento das carreiras de nível técnico.
“É bastante disseminada no Brasil a ideia de que cargos de gestão pagam bem e cargos técnicos pagam mal. Mas isso está mudando – até porque a demanda por profissionais da área técnica tem impulsionado os seus salários”, diz o consultor.
Rafael Lucchesi concorda. "Temos uma tradição cultural baicharelesca, que está sendo vencida aos poucos”, diz o diretor da CNI – que também é o diretor-geral do Senai (Serviço Nacional da Indústria, que oferece cursos técnicos).
Segundo Lucchesi, hoje um operador de instalação elétrica e um técnico petroquímico chegam a ganhar R$ 8,3 mil por mês. Da mesma forma, um técnico de mineração com dez anos de carreira poderia ter um salário de R$ 9,6 mil - mais do que ganham muitos profissionais com ensino superior.
“Por isso, já há uma procura maior por essas formações, principalmente por parte de jovens da classe C, mas é preciso mais investimentos para suprir as necessidades do país nessa área”, acredita.

sábado, 5 de outubro de 2013

O SOLITÁRIO

Como alguém que por mares desconhecidos viajou, 
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria; 
os dias cheios estão sobre as suas mesas 
mas para mim a distância é puro sonho. 

Penetra profundamente no meu rosto um mundo, 
tão desabitado talvez como uma lua; 
mas eles não deixam um único pensamento só, 
e todas as suas palavras são habitadas. 

As coisas que de longe trouxe comigo 
parecem muito raras, comparadas com as suas —: 
na sua vasta pátria são feras, 
aqui sustém a respiração, por vergonha. 

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens" 
Tradução de Maria João Costa Pereira

EXERCÍCIO DA CIDADANIA REQUER APRENDIZAGEM E PRÁTICA


Transformar princípios e valores em atitudes que beneficiam toda a sociedade é um exemplo de cidadania
Agência USP


 Atitudes como não jogar lixo na rua, dar lugar ao idoso em meios de transporte coletivo e esperar que as pessoas saiam do metrô antes de entrar são questões corriqueiras na vida da população que se encaixam perfeitamente na concepção de cidadania pretendida pelo cientista jurídico Ovídio Jairo Rodrigues Mendes. "No entanto, pela correria diária, essas atitudes não são observadas e acabam por se tornar problemas sociais. E a cidadania requer aprendizagem e prática, sob pena de funcionar como mero rótulo", destaca.

Mendes estudou o tema em sua dissertação de mestrado " Concepção da Cidadania", apresentada em 2010 na Faculdade de Direito (FD) da USP. De acordo com o cientista jurídico, simbolicamente, comportar-se como cidadão implica em quatro momentos: o surgimento do problema social (questões que afetam a comunidade), entendimento e análise lógica desta questão, procura racional de uma solução adequada para o caso, e a confirmação, para o cidadão, de que a solução encontrada satisfaz o problema social enfrentado.

Para Mendes a questão da cidadania está, hoje, mais vinculada a uma relação de consumo do que a um processo de formação de personalidade. "Quando a pessoa vai fazer um documento no Poupatempo, ela pega um pedaço de papel e, com este ato, se considera um pouco mais cidadã. Mas cidadania não é isso: é viver em harmonia com o outro, transformar princípios e valores em atitudes que não beneficiam só interesses individuais, mas interesses coletivos. Por exemplo, eu varro a rua para evitar que o lixo se acumule e prejudique tanto a mim quanto aos meus vizinhos", explica.

Segundo o pesquisador, a concepção de cidadania adquire seu formato de acordo com o problema a afligir a comunidade. O jurista argumenta que "talvez por isso seja tão difícil ser cidadão, principalmente em um país de tradição democrática recente como o Brasil e onde a educação formal não é valorada como elemento fundamental na diferenciação entre 'súdito' [aquele que  simplesmente segue a vontade do governante] e 'cidadão' [capacidade para procurar e agir de maneira mais autônoma possível em prol de interesses próprios, limitado tão somente pelo ordenamento legal e pelo respeito ao bem comum]".

A pesquisa de Mendes não teve a intenção de limitar-se à doutrina jurídicas (teorias de direito) e à jurisprudência (decisões do tribunais). O foco foi direcionado para "buscar uma maneira de elaborar uma teoria que o público comum e não só cientistas jurídicos ou pessoas esclarecidas se identificassem para uma conceituação do que seja cidadania".

Para realizar o estudo, o cientista jurídico considerou diferentes tipos de narrativa sobre a conceituação de cidadania nas teoria dos filósofos Aristóteles, Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau; passando a uma análise das transformações sofridas pela concepção do termo no pós-independência no Brasil Império, no Estado Novo e no processo de redemocratização do Brasil, considerando questões políticas e econômicas; para, ao final, levantar algumas hipóteses sobre a espetacularização da cidadania e a transformação dos cidadãos em plateias para projetos de poder de políticos profissionais, principalmente na fase brasileira atual.

Segundo o pesquisador, o estudo não intenciona julgar as sociedades dos teóricos pesquisados e suas concepções de cidadania, mas sim apenas tê-las como modelo-padrão para a formação de um conceito baseado em valores e princípios simples de vida em sociedade, como o respeito ao outro e o respeito à liberdade.

Mendes assinala que a concepção de cidadania para não ser apenas formal, requer a capacidade de a pessoa dispor de objetivos racionalmente possíveis de como tornar concretos seus ideais. "Como toda regra, a formulação teórica de uma concepção de cidadania tem como primeiro passo a intuição para a identificação de regras sobre o assunto dentro da Constituição ou de leis inferiores, tornando a sua definição mais palpável ou palatável ao cidadão comum ", diz.

Visão egocêntrica de mundo
O pesquisador, no entanto, não se limita a questões individuais. "Muitas decisões governamentais não privilegiam a sociedade como um todo, mas o interesse de setores da população", conta. Ele cita o atual discurso de muitos meios de comunicação, sobre diversos acontecimentos cotidianos, como acidentes, enchentes, crimes. "Esse discurso vale-se de argumentações opinativas e não da lógica, e só acabam por inflamar a teia de queixas e reclamações vazias. Assim, os 'cidadãos' reclamam da ausência do Estado porque precisam encontrar um culpado pois pagam impostos e, por isso, devem ser servidos; enquanto que, do outro lado, o Estado se defende das reclamações, acusando os cidadãos de serem os provocadores para todas as desgraças cotidianas", destaca.

"A culpa está ao mesmo tempo dos dois lados. Falta a consciência de cada um ou uma orientação que esclareça dentro do conceito de cidadania a diferença entre achismos e racionalidade. O achismo é o não viver, pois não há reflexão; a racionalidade é ter a capacidade de interagir, de buscar causas e soluções, que se proponham críticas e equilibradas quanto a interesses individuais e coletivos", conclui.