terça-feira, 17 de dezembro de 2013
TO BE OR NOT TO BE
'Mãe, Papai Noel existe?'
O Natal está aí e muitos pais enfrentam seus filhos, que lhes fazem perguntas ou comentários incômodos: "Papai Noel existe de verdade ou é de mentirinha?" "O Mateus ainda acredita no Papai Noel, coitado. Ele não existe, não é, mãe?" "O Papai Noel é o papai, não é, mãe?".
Alguns pais não têm dúvida alguma quanto à resposta a dar a seus filhos. Dizem que ele não existe, e ponto final. Alguns até avançam fazendo comentários sobre o consumo exagerado nessa época etc. Mas o problema é que os filhos persistem nos comentários e, mesmo obtendo as mesmas respostas dos pais, voltam ao assunto com frequência.
Esse fato preocupou muito uma jovem mãe, cuja filha está prestes a fazer sete anos, porque a garota está com dúvidas e quer que sua mãe lhe garanta a existência da figura.
Mesmo com a palavra dada da mãe de que agora que ela cresceu já sabe que o Papai Noel não existe, depois de um tempo a menina refaz a pergunta de outros modos. "O que ela quer que eu responda?", me perguntou essa mãe.
Outra mãe chegou a brigar com o filho de cinco anos porque o garoto insiste na crença da figura natalina, o que a mãe não quer. "Gosto mais de falar a verdade de tudo para ele", comentou ela.
Para começo de conversa, a existência dessa figura não tem relação com a verdade, ou melhor, com a realidade. O Papai Noel é uma figura, para a criança, igual às que vivem nos contos que elas ouvem, como animais que falam, bruxas e fadas, princesas encantadas, duendes etc.
Todas são figuras míticas que habitam o imaginário da criança e que estimulam sua criatividade, intensificam emoções prazerosas e/ou dolorosas e colaboram para que muitas angústias sejam elaboradas.
Você já tentou, caro leitor, convencer uma criança de que não há monstro algum em seu quarto, à noite? Ninguém consegue se o caminho tomado pelo adulto for o da realidade. Entretanto, se a solução contemplar a fantasia e a mágica do universo infantil, fica mais fácil.
Eu sempre me lembro com muita admiração da solução que o pai de um garoto de quatro anos encontrou para acabar com o monstro que impedia o sono da família todas as noites. Depois de tentar provar ao filho que o tal monstro não existia, ele decidiu entrar na fantasia do filho. Comprou uma espada de plástico e disse ao filho que ela era mágica, feita para espantar monstros.
Deixou a espada ao lado da cama do filho e orientou o garoto a usar a espada caso o monstro aparecesse. Mágica: depois disso, a família voltou a dormir sossegada.
Com o Papai Noel é a mesma coisa. Creio que as crianças não querem uma resposta para o fenômeno, no qual elas acreditarão independentemente da postura da família. Quando elas perguntam, talvez tudo o que elas peçam seja a possibilidade de uma conversa com seus pais a respeito de seu crescimento, de suas fantasias ou até mesmo da despedida delas.
Elas querem saber, por exemplo, como substituir a figura do Papai Noel. E é importante que elas saibam que podem fazer isso, pois a figura traz em si uma ideia: a de que alguém quer fazer a alegria de outro alguém nesse dia.
Mas, para que isso ocorra, os pais precisam se interessar verdadeiramente pelo que seus filhos têm a dizer, escutar com interesse suas ideias sem moralizar, considerar suas hipóteses e, principalmente, achar que o que eles dizem é importante.
rosely sayão
domingo, 15 de dezembro de 2013
O BARDO
Eu aprendi...
...que ignorar os fatos não os altera;
Eu aprendi...
...que quando você planeja se nivelar com alguém, apenas esta permitindo que essa pessoa continue a magoar você;
Eu aprendi...
...que o AMOR, e não o TEMPO, é que cura todas as feridas;
Eu aprendi...
...que ninguém é perfeito até que você se apaixone por essa pessoa;
Eu aprendi...
...que a vida é dura, mas eu sou mais ainda;
Eu aprendi...
...que as oportunidades nunca são perdidas; alguém vai aproveitar as que você perdeu.
Eu aprendi...
...que quando o ancoradouro se torna amargo a felicidade vai aportar em outro lugar;
Eu aprendi...
...que não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito;
Eu aprendi...
...que todos querem viver no topo da montanha, mas toda felicidade e crescimento ocorre quando você esta escalando-a;
Eu aprendi...
...que quanto menos tempo tenho, mais coisas consigo fazer.
(Boa noite , Amor )
William Shakespeare
...que ignorar os fatos não os altera;
Eu aprendi...
...que quando você planeja se nivelar com alguém, apenas esta permitindo que essa pessoa continue a magoar você;
Eu aprendi...
...que o AMOR, e não o TEMPO, é que cura todas as feridas;
Eu aprendi...
...que ninguém é perfeito até que você se apaixone por essa pessoa;
Eu aprendi...
...que a vida é dura, mas eu sou mais ainda;
Eu aprendi...
...que as oportunidades nunca são perdidas; alguém vai aproveitar as que você perdeu.
Eu aprendi...
...que quando o ancoradouro se torna amargo a felicidade vai aportar em outro lugar;
Eu aprendi...
...que não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito;
Eu aprendi...
...que todos querem viver no topo da montanha, mas toda felicidade e crescimento ocorre quando você esta escalando-a;
Eu aprendi...
...que quanto menos tempo tenho, mais coisas consigo fazer.
(Boa noite , Amor )
William Shakespeare
NEUROCIÊNCIAS
Tecnologia permite a pessoa com doença cerebral voltar a falar normalmente.
Os sintetizadores, que conferem um tom metálico às palavras, podem ser substituídos por vozes reais.
Pessoas com paralisia cerebral, danos cerebrais ou outras doenças neurológicas podem se tornar inaptas a falar - e precisam recorrer aos sintetizadores de vozes - aqueles aparelhos que 'codificam a mensagem enviada pelo cérebro em fala, mas uma fala metálica, robótica.
Pensando nisso, uma empresa norte-americana desenvolveu uma tecnologia, que se chama VocaliD, e que pretende fazer o mesmo processo com um resultado totalmente diferente. Para construir uma voz personalizada, muito parecida com a de qualquer ser humano, a empresa extrai propriedades da voz - ou de qualquer som emitido - pela pessoa com problemas.
Em seguida, os empreendedores aplicam esses sons a uma voz real doada por uma pessoa com a mesma idade, tamanho, sexo do cliente com problemas. O empreendimento, em seu site, informa que recebe vozes de doadores e, também, pode enviá-las para quem tiver interesse.
A professora Rupal Patel, diretora do Laboratório de análise de comunicação da Northeastem University, e o médico Tim Bunnell, são os responsáveis pela iniciativa. De acordo com o site mantido por eles, apenas nos Estados Unidos há 2,5 milhões de pessoas com severos problemas para falar por conta de alguma doença.
Os sintetizadores, que conferem um tom metálico às palavras, podem ser substituídos por vozes reais.
Pessoas com paralisia cerebral, danos cerebrais ou outras doenças neurológicas podem se tornar inaptas a falar - e precisam recorrer aos sintetizadores de vozes - aqueles aparelhos que 'codificam a mensagem enviada pelo cérebro em fala, mas uma fala metálica, robótica.
Pensando nisso, uma empresa norte-americana desenvolveu uma tecnologia, que se chama VocaliD, e que pretende fazer o mesmo processo com um resultado totalmente diferente. Para construir uma voz personalizada, muito parecida com a de qualquer ser humano, a empresa extrai propriedades da voz - ou de qualquer som emitido - pela pessoa com problemas.
Em seguida, os empreendedores aplicam esses sons a uma voz real doada por uma pessoa com a mesma idade, tamanho, sexo do cliente com problemas. O empreendimento, em seu site, informa que recebe vozes de doadores e, também, pode enviá-las para quem tiver interesse.
A professora Rupal Patel, diretora do Laboratório de análise de comunicação da Northeastem University, e o médico Tim Bunnell, são os responsáveis pela iniciativa. De acordo com o site mantido por eles, apenas nos Estados Unidos há 2,5 milhões de pessoas com severos problemas para falar por conta de alguma doença.
domingo, 20 de outubro de 2013
A FORMAÇÃO DE UM POVO
A formação de um povo pode ser olhada sob vários aspectos.
Aqui eu falo da formação cultural, informação, crescimento, consciência dos
direitos e deveres de quem vive numa democracia verdadeira, que se interesse
por um povo formado e informado.
Aqui entra primariamente a educação, que venho comentando
sem conseguir esgotar, assunto inexaurível na vida privada de todo cidadão e na
existência geral de um povo. É preciso ter em mente que, para os líderes, sejam
quais forem, esse deve ser um interesse primordial em sua atividade.
A mim me preocupa a redução do nível de formação e
informação que nos oferecem. Escrevi muito sobre as cotas, com que, em lugar de
melhorar a educação pela base, subindo o nível do precário ensino elementar, se
reduz o nível do ensino superior, para que se adapte aos que lá entram mais por
cota do que por mérito e preparo, em lugar de ser, como deveria, o inverso.
Com isso, nosso ensino superior, já tão carente e ruim, com
algumas gloriosas exceções, piora ainda mais. Vejam-se os dados assustadores de
reprovação, no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, de candidatos saídos dos
nossos cursos de direito.
Os exames de igual caráter para egressos de cursos de
medicina ainda não apresentam resultado tão incrivelmente ruim, mas começam a
nos deixar alertas pois esses médicos vão lidar com o nosso corpo, a nossa
vida.
Estudantes de letras frequentemente nem sabem ortografia, e
mais: não conseguem se expressar por escrito, não têm pensamento claro e
seguro, não foram habituados, desde cedo, a argumentar, a pensar, a analisar, a
discernir, a ler e a escrever.
Agora, pelo que leio, parece que vão conseguir piorar ainda
mais a situação, pois a meninada só precisa se alfabetizar no fim do 3º ano da
escola elementar. Pergunto: o que estarão fazendo nos primeiros dois anos de
escola? Brincando? Gazeteando? A escola vai fingir que está ensinando,
preparando para a vida e a profissão? E os pais que se interessam, o que podem
esperar de tal ensino?
Aos 8 anos, meninos e meninas já deveriam estar escrevendo
direito e lendo bastante — claro que em escolas públicas de qualquer ponto do
país onde os governos tivessem colocado professores bem pagos, seguros e com
boa autoestima em escolas nas quais cada sala de aula tenha uma prateleira com
livros doados pelos respectivos governos, municipal, estadual ou federal,
interessados na formação do seu povo.
Qualquer coisa diferente disso é ilusão pura. Não resolve
enviar centenas de jovens ao exterior ou trazer estudantes estrangeiros para
cá, se a base primeira do ensino é ruim como a nossa, pois não adianta um
telhado de luxo sobre paredes rachadas em casas construídas sobre areia
movediça.
Como não adianta dar comida a quem precisaria logo a seguir
de estudo e trabalho que proporcionasse crescimento real, projetos e horizontes
em lugar da dependência de meninos que não conseguem largar o peito materno
mesmo passada a idade adequada.
O que vai acontecer? Com certeza vai se abrir e aprofundar
mais o fosso entre alunos saídos de escolas particulares que ainda consigam
manter um nível e objetivo de excelência e a imensa maioria daqueles saídos de
escolas públicas ou mesmo privadas em que o rebaixamento de nível se instalar.
Grandes e pequenas empresas e indústrias carecem de mão de
obra especializada e boa, milhares de vagas oferecidas não são preenchidas
porque não há mão de obra preparada: imaginem se a alfabetização for concluída
no fim do 3o ano elementar, quando os alunos tiverem já 8 anos, talvez mais,
quando e como serão preparados?
Com que idade estarão prontos para um mercado de trabalho
cada vez mais exigente? Ou a exigência também vai cair e teremos mais edifícios
e outras obras mal construídos, serviços deixando a desejar, nossa excelência
cada vez mais reduzida?
Não sei se somos um povo cordial: receio que sejamos
desinteressados, mal orientados e conformados, achando que é só isso que
merecemos. Ou nem pensando no assunto.
LYA LUFT
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
CÃO
Cão 'prevê' ataques epiléticos de menina na Irlanda
A mãe de Brianna diz que Charlie é muito protetor e nunca sai do lado da menina
Uma família irlandesa alega que seu cão de estimação está ajudando a cuidar de sua filha de três anos, chamando a atenção dos pais quando a menina está prestes a ter um ataque epilético.
A família Lynch acredita que seu dogue alemão, Charlie, pode perceber mudanças em sua filha - Brianna sofre de epilepsia desde que nasceu - até 20 minutos antes que ela tenha uma crise.
Segundo a família, Charlie os alerta andando em círculos em torno de Brianna. Ele também gentilmente a encosta contra uma parede para impedi-la de cair durante um ataque.
A epilepsia pode levar a convulsões traumáticas, como um estado de transe profundo, ou convulsões violentas, durante as quais ela corre o risco de cair e bater a cabeça.
Não há provas científicas de que cães possam detectar esse mal, mas instituições britânicas já treinam os animais para identificar problemas de saúde em humanos.
A mãe de Brianna, Arabella Scanlan, disse que Charlie não é treinado como um "cão de alerta para um ataque epilético" - é um animal de estimação comum, que ela crê ter desenvolvido instintivamente uma habilidade especial.
Padrão de comportamento
A família notou a habilidade de Charlie anos atrás, quando o enorme dogue alemão começou a ficar agitado e andar em círculos em torno Brianna, e minutos depois ela teve um ataque epilético.
A mãe disse que começou a perceber um padrão de comportamento, percebendo que a agitação do cachorro comumente aumentava antes de um ataque.
"Eu fui para o quintal um dia e ela (Brianna) estava tendo uma convulsão. Estava encostada na parede, inclinada sobre (o cachorro), que olhava para mim como se dissesse: 'Eu não sei o que fazer'. Mas ele ficou ao lado dela, não se moveu", lembra Scanlan.
Ela conta que, desde então, o cão raramente sai do lado de Brianna e a encosta contra alguma superfície se sente que ela está prestes a convulsionar.
"Realmente não entendo a psicologia por trás disso, mas as pessoas ficam hipnotizadas quando o veem em ação. Realmente emociona vê-los juntos", acrescentou.
Estudos científicos têm demonstrado que alguns cães podem ser treinados para "farejar" cânceres e detectar baixos níveis de açúcar no sangue em pacientes diabéticos, mas até o momento não há nenhuma prova científica conclusiva de que os caninos tenham capacidade de prever ataques epiléticos em humanos.
Ao mesmo tempo, instituições de caridade na Grã-Bretanha treinam cães para ajudar pessoas com diversos problemas de saúde.
A instituição Support Dogs treina "cães que alertam sobre convulsões" e alega que um animal treinado pode "dar entre 10 e 55 minutos de aviso prévio sobre um iminente ataque".
A executiva-chefe da Medical Dection Dogs, Claire Guest, tem experiência pessoal sobre a capacidade dos animais em detectar doenças graves.
Ela disse que estava ensinando cães a reconhecer tipos de câncer quando um deles "começou a chamar sua atenção". Posteriormente, ela descobriu que tinha um câncer de mama em estágio inicial.
Guest lembra, porém, que ainda não está claro como alguns cães poderiam prever ataques epiléticos. Ela acha que a habilidade poderia ser desencadeada pelo cheiro, mas os cães podem também estar respondendo a sinais visuais.
'Capacidade inata'
Vale destacar que nem todos os cães compartilham da habilidade de detectar doenças e enfermidades.
Guest disse essa capacidade é geralmente encontrada em cães altamente expressivos, atenciosos em relação aos humanos e que mostram uma preocupação geral em proteger seus donos.
Ela acrescentou que a maioria dos estudos científicos a respeito do tema foi inicialmente provocada por relatos de donos de animais que observaram um padrão de comportamento em seus cães. Mas crê que mais pesquisas são necessárias.
Em 2003, os resultados de um estudo preliminar divulgado na publicação científica Seizure, European Journal of Epilepsy sugeriram que "alguns cães têm capacidade natural para alertar e/ou responder a ataques epiléticos".
O estudo acrescentou que o sucesso desses cães "depende, em grande parte, da consciência e da resposta do dono ao comportamento de alerta do cachorro".
A mãe de Brianna diz que Charlie é muito protetor e nunca sai do lado da menina
Uma família irlandesa alega que seu cão de estimação está ajudando a cuidar de sua filha de três anos, chamando a atenção dos pais quando a menina está prestes a ter um ataque epilético.
A família Lynch acredita que seu dogue alemão, Charlie, pode perceber mudanças em sua filha - Brianna sofre de epilepsia desde que nasceu - até 20 minutos antes que ela tenha uma crise.
Segundo a família, Charlie os alerta andando em círculos em torno de Brianna. Ele também gentilmente a encosta contra uma parede para impedi-la de cair durante um ataque.
A epilepsia pode levar a convulsões traumáticas, como um estado de transe profundo, ou convulsões violentas, durante as quais ela corre o risco de cair e bater a cabeça.
Não há provas científicas de que cães possam detectar esse mal, mas instituições britânicas já treinam os animais para identificar problemas de saúde em humanos.
A mãe de Brianna, Arabella Scanlan, disse que Charlie não é treinado como um "cão de alerta para um ataque epilético" - é um animal de estimação comum, que ela crê ter desenvolvido instintivamente uma habilidade especial.
Padrão de comportamento
A família notou a habilidade de Charlie anos atrás, quando o enorme dogue alemão começou a ficar agitado e andar em círculos em torno Brianna, e minutos depois ela teve um ataque epilético.
A mãe disse que começou a perceber um padrão de comportamento, percebendo que a agitação do cachorro comumente aumentava antes de um ataque.
"Eu fui para o quintal um dia e ela (Brianna) estava tendo uma convulsão. Estava encostada na parede, inclinada sobre (o cachorro), que olhava para mim como se dissesse: 'Eu não sei o que fazer'. Mas ele ficou ao lado dela, não se moveu", lembra Scanlan.
Ela conta que, desde então, o cão raramente sai do lado de Brianna e a encosta contra alguma superfície se sente que ela está prestes a convulsionar.
"Realmente não entendo a psicologia por trás disso, mas as pessoas ficam hipnotizadas quando o veem em ação. Realmente emociona vê-los juntos", acrescentou.
Estudos científicos têm demonstrado que alguns cães podem ser treinados para "farejar" cânceres e detectar baixos níveis de açúcar no sangue em pacientes diabéticos, mas até o momento não há nenhuma prova científica conclusiva de que os caninos tenham capacidade de prever ataques epiléticos em humanos.
Ao mesmo tempo, instituições de caridade na Grã-Bretanha treinam cães para ajudar pessoas com diversos problemas de saúde.
A instituição Support Dogs treina "cães que alertam sobre convulsões" e alega que um animal treinado pode "dar entre 10 e 55 minutos de aviso prévio sobre um iminente ataque".
A executiva-chefe da Medical Dection Dogs, Claire Guest, tem experiência pessoal sobre a capacidade dos animais em detectar doenças graves.
Ela disse que estava ensinando cães a reconhecer tipos de câncer quando um deles "começou a chamar sua atenção". Posteriormente, ela descobriu que tinha um câncer de mama em estágio inicial.
Guest lembra, porém, que ainda não está claro como alguns cães poderiam prever ataques epiléticos. Ela acha que a habilidade poderia ser desencadeada pelo cheiro, mas os cães podem também estar respondendo a sinais visuais.
'Capacidade inata'
Vale destacar que nem todos os cães compartilham da habilidade de detectar doenças e enfermidades.
Guest disse essa capacidade é geralmente encontrada em cães altamente expressivos, atenciosos em relação aos humanos e que mostram uma preocupação geral em proteger seus donos.
Ela acrescentou que a maioria dos estudos científicos a respeito do tema foi inicialmente provocada por relatos de donos de animais que observaram um padrão de comportamento em seus cães. Mas crê que mais pesquisas são necessárias.
Em 2003, os resultados de um estudo preliminar divulgado na publicação científica Seizure, European Journal of Epilepsy sugeriram que "alguns cães têm capacidade natural para alertar e/ou responder a ataques epiléticos".
O estudo acrescentou que o sucesso desses cães "depende, em grande parte, da consciência e da resposta do dono ao comportamento de alerta do cachorro".
domingo, 13 de outubro de 2013
PROSOPAGNOSIA
Como vive quem não consegue memorizar nenhum rosto
Portador do transtorno enxerga perfeitamente, mas não consegue reconhecer ou identificar rostos
Imagine do dia para a noite não conseguir mais reconhecer seus pais, filhos ou parentes mais próximos. Você pode vê-los, mas não sabe quem são, nem se estão rindo ou franzindo a testa. Foi o que aconteceu com o britânico David Bromley. Após sofrer uma lesão no cérebro, ele passou a apresentar um transtorno pouco conhecido, a 'cegueira de feições'.
Bromley, de 67 anos, convive com a desordem, cujo nome verdadeiro é prosopagnosia, desde os 11 anos. As pessoas com esse problema enxergam, mas são incapazes de identificar rostos. Ou seja, veem olhos, nariz e boca, mas não reconhecem nem a si mesmos nem a seus interlocutores, bem como gestos ou emoções.
"Eu posso reconhecer minha esposa se eu for para casa, pois parto do pressuposto de que será ela quem estará lá. Mas se a encontrar na rua por acaso, não vou reconhecê-la", disse ele à BBC.
Segundo médicos, a ‘cegueira de feições’ afeta milhares de pessoas no mundo que, no entanto, não sabem que são portadoras do transtorno.
"Descobri que tinha esse problema quando fui a um encontro de amigos que não via há 30 anos. Dois deles tinham sido meus melhores amigos, fomos juntos a todos os festivais de música, viajamos juntos para a Espanha para trabalhar no verão. Éramos muito próximos, mas acabamos nos afastando pelos rumos diferentes que cada um tomou", conta Bromley.
Naquela ocasião, o britânico já estava se recuperando da lesão que havia sofrido no cérebro e pensava que a única sequela do acidente era a perda parcial de sua visão, que o impossibilitava de dirigir. Por essa razão, Bromley foi acompanhado do irmão ao encontro. A surpresa veio durante a conversa dentro do carro de volta para casa.
"Quando estávamos retornando, lembro que disse a meu irmão: 'Frank e Miky não mudaram nada, continuam exatamente os mesmos’, para logo em seguida, lhe perguntar: ‘Os dois estavam vestidos com teentops, não?' (espécie de suéter que esteve na moda nos anos 70)"
O que Bromley estava vendo, na verdade, era a memória que tinha de seus amigos daquela época. "Meu cérebro estava me dizendo que Frank e Miky estavam ali, mas a imagem que eu tinha deles não correspondia à realidade".
"Foi então que descobri que tinha cegueira para feições".
Congênita e adquirida
Segundo a literatura médica, existem dois tipos de prosopagnosia: uma congênita, na qual a pessoa já nasce com o transtorno e outra adquirida, que ocorre normalmente após algum tipo de dano cerebral.
Estima-se que 2% da população mundial apresentam o primeiro tipo do transtorno. No Brasil, estudos mostram que pelo menos 5 milhões de pessoas sofrem da desordem.
Mas Bromley faz parte do segundo grupo, que é raro.
"Esse segundo tipo é extremamente raro, já que a região do cérebro afetada é muito específica", explica à BBC Ashok Jansari, especialista no transtorno e professor de Neuropsicologia Cognitiva da Faculdade de Psicologia da Universidade do Leste de Londres.
"Estávamos de férias em Cuba. Um dia eu comecei a conversar com um homem da Dinamarca , quando uma mulher se aproximou de nós e disse 'Bom dia' , ao que eu respondi 'Olá, prazer em conhecê-la, pensando se tratar da esposa do dinamarquês, quando, na verdade, era a minha "
David Bromley, que sofre de 'cegueira para feições'
"A verdade é que eu não sei o que é pior: nunca ser capaz de reconhecer as pessoas ou parar de reconhecê-las aos 56 anos, como aconteceu comigo", questiona-se Bromley, para quem a doença é um constrangimento social.
"Estávamos de férias em Cuba. Um dia eu comecei a conversar com um homem da Dinamarca , quando uma mulher se aproximou e disse 'Bom dia' , ao que eu respondi 'Olá, prazer em conhecê-la, pensando se tratar da esposa do dinamarquês, quando, na verdade, era a minha", conta Bromley.
Situações como essas já se tornaram frequentes em sua vida. "Em outra ocasião, estava em uma piscina quando vi uma mulher loira em uma jacuzzi. Assobiei pensando que era minha esposa, quando, de repente, ouvi uma voz atrás de mim: 'David, o que você está fazendo?' Eu estava assobiando para a mulher errada."
Bromley não é cego. O problema acontece quando ele volta a cruzar com uma pessoa 10 ou 15 minutos depois de conhecê-la.
"Uma vez participei de uma reunião para um grande projeto. Tudo correu tranquilamente até que depois da reunião, fui ao encontro de outro cliente que trabalhava para a mesma empresa e com quem queria fechar um negócio. Ele me convidou para tomar um café quando um outro homem chegou e nos abordou. Eu lhe disse: 'Prazer em conhecê-lo'. A resposta dele foi: 'Mas nós nos vimos há 10 minutos na reunião!'".
Vergonha social
Desde então, Bromley se vê obrigado a explicar seu problema: "Toda vez que vou ver um cliente, digo que tive uma lesão cerebral que me deixou incapaz de reconhecer rostos e adianto que, se ignorá-los, não estou sendo hostil."
Esse tipo de constrangimento social também afeta a britânica Sandra, que não quis ser identificada na reportagem. Há 14 anos, ela teve uma encefalite (infecção no cérebro) que evoluiu para uma cegueira de feições.
Embora ela tenha desenvolvido uma versão mais branda da prosopagnosia, uma vez que pode reconhecer pessoas que conhecia antes de ter a desordem, prefere evitar o contato com elas.
"A vida com prosopagnosia é muito constrangedora, porque as pessoas me cumprimentam e eu não sei quem elas são. Caso seja alguém que esteja em seu local de trabalho (como o açougueiro ou o padeiro), posso adivinhar quem são. Mas se estão fora de contexto, não consigo reconhecê-las", conta ela à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Sandra dá aulas em uma escola, mas seus alunos não sabem de sua doença. "Se eu vir alguém todos os dias, posso reconhecê-lo. Mas se eu encontrar um dos alunos na rua e ele me cumprimentar, posso inferir que se trata de uma criança da escola, mas não necessariamente sei quem é."
"Eu não digo nada a meus alunos, tento fazer um esforço para memorizar seus rostos", acrescenta .
Especialistas entendem as frustrações de Bromley e Sandra. "Não reconhecer as pessoas pode causar um constrangimento social", diz Jansari, que acompanhou o caso dos dois britânicos.
"Hipoteticamente, se alguém tem prosopagnosia mas não sabe, e seu trabalho exige o reconhecimento de pessoas (como no caso de um guarda de segurança), então eles podem estar em maus lençóis. Mas duvido que esse tipo de situação ocorra, pois quem tem esse transtorno, mesmo sem saber, provavelmente vai dizer aos outros que "não é muito bom" em reconhecer rostos", explica o especialista.
No entanto, Jansari relata casos em que a pessoa teve de deixar o emprego por causa da doença. "Um exemplo aconteceu com um professor que estava tendo dificuldade em reconhecer seus alunos, o que estava causando problemas quando tinha de adverti-los".
Deficiência?
Cinco coisas que você precisa saber sobre a prosopagnosia
"Prosopagnosia " vem das palavras gregas "prospon" (cara) e "agnosia" (inabilidade de reconhecer).
A prosopagnosia congênita ou verificada na primeira infância é chamada de "prosopagnosia desenvolvimental". Nesses casos, normalmente, não há uma causa médica conhecida.
O transtorno também pode ocorrer como resultado de uma lesão cerebral. Nesse caso, é chamada de "prosopagnosia adquirida".
Os pesquisadores sugerem que a prosopagnosia desenvolvimental pode ter herança genética.
Especialistas acreditam que uma parte específica do cérebro está envolvida no processamento e reconhecimento facial. Essa região é chamada "área fusiforme da face".
Fonte: Universidade do Leste de Londres
Colegas de trabalho de Sandra sabiam que algo estava errado com ela. "Mas agora a maioria dessas pessoas já saiu e há pessoas novas que não sabem do meu problema."
"A razão pela qual não falo da minha doença não tem a ver com o fato de as pessoas pensarem que eu não sou capaz de realizar meu trabalho. Eu não quero me sentir envergonhada ou que elas pensem que há algo de errado comigo."
Enquanto a prosopagnosia não é reconhecida como uma doença, Jansari defende que alguns casos deveriam ser tratados como tal.
A enfermidade não tem cura. "No caso da adquirida, uma vez que a parte danificada do cérebro não vai se recuperar, é impossível curar o problema", diz o especialista .
"Mas ainda não sabemos o que causa a prosopagnosia congênita. Mas, hipoteticamente, no futuro, se eles descobrirem que a causa é genética, isso talvez possa ser corrigido.”
Para os que sofrem prosopagnosia, só resta uma coisa a fazer: melhorar suas estratégias para reconhecer as pessoas.
"Se eu for às compras com a minha mulher, tento memorizar a jaqueta que ela está usando. Então, se eu vir alguém com uma jaqueta amarela e cabelos loiros, sei que se trata da minha esposa", diz Bromley.
O esforço que David depreende em estudar o rosto das pessoas que só vê uma vez fez com que ele passasse por um constrangimento certa vez em uma entrevista de emprego.
"O entrevistador me disse que eu o estava olhando como se fosse um serial killer".
"Às vezes estudo o rosto das pessoas com tamanha intensidade que pode parecer intimidador. Tento encontrar uma característica de cada um, como uma cicatriz ou a cor dos cabelos, para poder me lembrar depois com quem conversei", acrescenta.
Mas essa estratégia não é 100% eficaz.
Jansari, da Universidade do Leste de Londres, conta que, mesmo que David tente observar tudo noss mínimos detalhes, incluindo a linguagem corporal, viu certa vez uma foto de quem pensava ser o cantor George Michael "quando, na verdade, era minha, da época em que eu tinha barba comprida e usava brinco de ouro".
"É muito angustiante", confessa David. "Todo o tempo eu tenho que me concentrar em pessoas e lugares, porque (a doença ) também afeta a minha percepção geográfica ".
"Preciso melhorar minhas estratégias de reconhecimento", diz ele.
Portador do transtorno enxerga perfeitamente, mas não consegue reconhecer ou identificar rostos
Imagine do dia para a noite não conseguir mais reconhecer seus pais, filhos ou parentes mais próximos. Você pode vê-los, mas não sabe quem são, nem se estão rindo ou franzindo a testa. Foi o que aconteceu com o britânico David Bromley. Após sofrer uma lesão no cérebro, ele passou a apresentar um transtorno pouco conhecido, a 'cegueira de feições'.
Bromley, de 67 anos, convive com a desordem, cujo nome verdadeiro é prosopagnosia, desde os 11 anos. As pessoas com esse problema enxergam, mas são incapazes de identificar rostos. Ou seja, veem olhos, nariz e boca, mas não reconhecem nem a si mesmos nem a seus interlocutores, bem como gestos ou emoções.
"Eu posso reconhecer minha esposa se eu for para casa, pois parto do pressuposto de que será ela quem estará lá. Mas se a encontrar na rua por acaso, não vou reconhecê-la", disse ele à BBC.
Segundo médicos, a ‘cegueira de feições’ afeta milhares de pessoas no mundo que, no entanto, não sabem que são portadoras do transtorno.
"Descobri que tinha esse problema quando fui a um encontro de amigos que não via há 30 anos. Dois deles tinham sido meus melhores amigos, fomos juntos a todos os festivais de música, viajamos juntos para a Espanha para trabalhar no verão. Éramos muito próximos, mas acabamos nos afastando pelos rumos diferentes que cada um tomou", conta Bromley.
Naquela ocasião, o britânico já estava se recuperando da lesão que havia sofrido no cérebro e pensava que a única sequela do acidente era a perda parcial de sua visão, que o impossibilitava de dirigir. Por essa razão, Bromley foi acompanhado do irmão ao encontro. A surpresa veio durante a conversa dentro do carro de volta para casa.
"Quando estávamos retornando, lembro que disse a meu irmão: 'Frank e Miky não mudaram nada, continuam exatamente os mesmos’, para logo em seguida, lhe perguntar: ‘Os dois estavam vestidos com teentops, não?' (espécie de suéter que esteve na moda nos anos 70)"
O que Bromley estava vendo, na verdade, era a memória que tinha de seus amigos daquela época. "Meu cérebro estava me dizendo que Frank e Miky estavam ali, mas a imagem que eu tinha deles não correspondia à realidade".
"Foi então que descobri que tinha cegueira para feições".
Congênita e adquirida
Segundo a literatura médica, existem dois tipos de prosopagnosia: uma congênita, na qual a pessoa já nasce com o transtorno e outra adquirida, que ocorre normalmente após algum tipo de dano cerebral.
Estima-se que 2% da população mundial apresentam o primeiro tipo do transtorno. No Brasil, estudos mostram que pelo menos 5 milhões de pessoas sofrem da desordem.
Mas Bromley faz parte do segundo grupo, que é raro.
"Esse segundo tipo é extremamente raro, já que a região do cérebro afetada é muito específica", explica à BBC Ashok Jansari, especialista no transtorno e professor de Neuropsicologia Cognitiva da Faculdade de Psicologia da Universidade do Leste de Londres.
"Estávamos de férias em Cuba. Um dia eu comecei a conversar com um homem da Dinamarca , quando uma mulher se aproximou de nós e disse 'Bom dia' , ao que eu respondi 'Olá, prazer em conhecê-la, pensando se tratar da esposa do dinamarquês, quando, na verdade, era a minha "
David Bromley, que sofre de 'cegueira para feições'
"A verdade é que eu não sei o que é pior: nunca ser capaz de reconhecer as pessoas ou parar de reconhecê-las aos 56 anos, como aconteceu comigo", questiona-se Bromley, para quem a doença é um constrangimento social.
"Estávamos de férias em Cuba. Um dia eu comecei a conversar com um homem da Dinamarca , quando uma mulher se aproximou e disse 'Bom dia' , ao que eu respondi 'Olá, prazer em conhecê-la, pensando se tratar da esposa do dinamarquês, quando, na verdade, era a minha", conta Bromley.
Situações como essas já se tornaram frequentes em sua vida. "Em outra ocasião, estava em uma piscina quando vi uma mulher loira em uma jacuzzi. Assobiei pensando que era minha esposa, quando, de repente, ouvi uma voz atrás de mim: 'David, o que você está fazendo?' Eu estava assobiando para a mulher errada."
Bromley não é cego. O problema acontece quando ele volta a cruzar com uma pessoa 10 ou 15 minutos depois de conhecê-la.
"Uma vez participei de uma reunião para um grande projeto. Tudo correu tranquilamente até que depois da reunião, fui ao encontro de outro cliente que trabalhava para a mesma empresa e com quem queria fechar um negócio. Ele me convidou para tomar um café quando um outro homem chegou e nos abordou. Eu lhe disse: 'Prazer em conhecê-lo'. A resposta dele foi: 'Mas nós nos vimos há 10 minutos na reunião!'".
Vergonha social
Desde então, Bromley se vê obrigado a explicar seu problema: "Toda vez que vou ver um cliente, digo que tive uma lesão cerebral que me deixou incapaz de reconhecer rostos e adianto que, se ignorá-los, não estou sendo hostil."
Esse tipo de constrangimento social também afeta a britânica Sandra, que não quis ser identificada na reportagem. Há 14 anos, ela teve uma encefalite (infecção no cérebro) que evoluiu para uma cegueira de feições.
Embora ela tenha desenvolvido uma versão mais branda da prosopagnosia, uma vez que pode reconhecer pessoas que conhecia antes de ter a desordem, prefere evitar o contato com elas.
"A vida com prosopagnosia é muito constrangedora, porque as pessoas me cumprimentam e eu não sei quem elas são. Caso seja alguém que esteja em seu local de trabalho (como o açougueiro ou o padeiro), posso adivinhar quem são. Mas se estão fora de contexto, não consigo reconhecê-las", conta ela à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Sandra dá aulas em uma escola, mas seus alunos não sabem de sua doença. "Se eu vir alguém todos os dias, posso reconhecê-lo. Mas se eu encontrar um dos alunos na rua e ele me cumprimentar, posso inferir que se trata de uma criança da escola, mas não necessariamente sei quem é."
"Eu não digo nada a meus alunos, tento fazer um esforço para memorizar seus rostos", acrescenta .
Especialistas entendem as frustrações de Bromley e Sandra. "Não reconhecer as pessoas pode causar um constrangimento social", diz Jansari, que acompanhou o caso dos dois britânicos.
"Hipoteticamente, se alguém tem prosopagnosia mas não sabe, e seu trabalho exige o reconhecimento de pessoas (como no caso de um guarda de segurança), então eles podem estar em maus lençóis. Mas duvido que esse tipo de situação ocorra, pois quem tem esse transtorno, mesmo sem saber, provavelmente vai dizer aos outros que "não é muito bom" em reconhecer rostos", explica o especialista.
No entanto, Jansari relata casos em que a pessoa teve de deixar o emprego por causa da doença. "Um exemplo aconteceu com um professor que estava tendo dificuldade em reconhecer seus alunos, o que estava causando problemas quando tinha de adverti-los".
Deficiência?
Cinco coisas que você precisa saber sobre a prosopagnosia
"Prosopagnosia " vem das palavras gregas "prospon" (cara) e "agnosia" (inabilidade de reconhecer).
A prosopagnosia congênita ou verificada na primeira infância é chamada de "prosopagnosia desenvolvimental". Nesses casos, normalmente, não há uma causa médica conhecida.
O transtorno também pode ocorrer como resultado de uma lesão cerebral. Nesse caso, é chamada de "prosopagnosia adquirida".
Os pesquisadores sugerem que a prosopagnosia desenvolvimental pode ter herança genética.
Especialistas acreditam que uma parte específica do cérebro está envolvida no processamento e reconhecimento facial. Essa região é chamada "área fusiforme da face".
Fonte: Universidade do Leste de Londres
Colegas de trabalho de Sandra sabiam que algo estava errado com ela. "Mas agora a maioria dessas pessoas já saiu e há pessoas novas que não sabem do meu problema."
"A razão pela qual não falo da minha doença não tem a ver com o fato de as pessoas pensarem que eu não sou capaz de realizar meu trabalho. Eu não quero me sentir envergonhada ou que elas pensem que há algo de errado comigo."
Enquanto a prosopagnosia não é reconhecida como uma doença, Jansari defende que alguns casos deveriam ser tratados como tal.
A enfermidade não tem cura. "No caso da adquirida, uma vez que a parte danificada do cérebro não vai se recuperar, é impossível curar o problema", diz o especialista .
"Mas ainda não sabemos o que causa a prosopagnosia congênita. Mas, hipoteticamente, no futuro, se eles descobrirem que a causa é genética, isso talvez possa ser corrigido.”
Para os que sofrem prosopagnosia, só resta uma coisa a fazer: melhorar suas estratégias para reconhecer as pessoas.
"Se eu for às compras com a minha mulher, tento memorizar a jaqueta que ela está usando. Então, se eu vir alguém com uma jaqueta amarela e cabelos loiros, sei que se trata da minha esposa", diz Bromley.
O esforço que David depreende em estudar o rosto das pessoas que só vê uma vez fez com que ele passasse por um constrangimento certa vez em uma entrevista de emprego.
"O entrevistador me disse que eu o estava olhando como se fosse um serial killer".
"Às vezes estudo o rosto das pessoas com tamanha intensidade que pode parecer intimidador. Tento encontrar uma característica de cada um, como uma cicatriz ou a cor dos cabelos, para poder me lembrar depois com quem conversei", acrescenta.
Mas essa estratégia não é 100% eficaz.
Jansari, da Universidade do Leste de Londres, conta que, mesmo que David tente observar tudo noss mínimos detalhes, incluindo a linguagem corporal, viu certa vez uma foto de quem pensava ser o cantor George Michael "quando, na verdade, era minha, da época em que eu tinha barba comprida e usava brinco de ouro".
"É muito angustiante", confessa David. "Todo o tempo eu tenho que me concentrar em pessoas e lugares, porque (a doença ) também afeta a minha percepção geográfica ".
"Preciso melhorar minhas estratégias de reconhecimento", diz ele.
GERAÇÃO DO DIPLOMA
Geração do diploma' lota faculdades, mas decepciona empresários
Ruth Costas
Da BBC Brasil
Número de instituições de ensino superior mais que dobrou desde 2001
Nunca tantos brasileiros chegaram às salas de aula das universidades, fizeram pós-graduação ou MBAs. Mas, ao mesmo tempo, não só as empresas reclamam da oferta e qualidade da mão-de-obra no país como os índices de produtividade do trabalhador custam a aumentar.
Na última década, o número de matrículas no ensino superior no Brasil dobrou, embora ainda fique bem aquém dos níveis dos países desenvolvidos e alguns emergentes. Só entre 2011 e 2012, por exemplo, 867 mil brasileiros receberam um diploma, segundo a mais recente Pesquisa Nacional de Domicílio (Pnad) do IBGE.
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Economia
“Mas mesmo com essa expansão, na indústria de transformação, por exemplo, tivemos um aumento de produtividade de apenas 1,1% entre 2001 e 2012, enquanto o salário médio dos trabalhadores subiu 169% (em dólares)", diz Rafael Lucchesi, diretor de educação e tecnologia na Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A decepção do mercado com o que já está sendo chamado de "geração do diploma" é confirmada por especialistas, organizações empresariais e consultores de recursos humanos.
"Os empresários não querem canudo. Querem capacidade de dar respostas e de apreender coisas novas. E quando testam isso nos candidatos, rejeitam a maioria", diz o sociólogo e especialista em relações do trabalho da Faculdade de Economia e Administração da USP, José Pastore.
Entre empresários, já são lugar-comum relatos de administradores recém-formados que não sabem escrever um relatório ou fazer um orçamento, arquitetos que não conseguem resolver equações simples ou estagiários que ignoram as regras básicas da linguagem ou têm dificuldades de se adaptar às regras de ambientes corporativos.
"Cadastramos e avaliamos cerca de 770 mil jovens e ainda assim não conseguimos encontrar candidatos suficientes com perfis adequados para preencher todas as nossas 5 mil vagas", diz Maíra Habimorad, vice-presidente do DMRH, grupo do qual faz parte a Companhia de Talentos, uma empresa de recrutamento. "Surpreendentemente, terminanos com vagas em aberto."
Outro exemplo de descompasso entre as necessidades do mercado e os predicados de quem consegue um diploma no Brasil é um estudo feito pelo grupo de Recursos Humanos Manpower. De 38 países pesquisados, o Brasil é o segundo mercado em que as empresas têm mais dificuldade para encontrar talentos, atrás apenas do Japão.
É claro que, em parte, isso se deve ao aquecimento do mercado de trabalho brasileiro. Apesar da desaceleração da economia, os níveis de desemprego já caíram para baixo dos 6% e têm quebrado sucessivos recordes de baixa.
Linha de montagem da Ford (Foto BBC)
Produtividade da industria aumentou apenas 1,1% na última década, segundo a CNI
Mas segundo um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) divulgado nesta semana, os brasileiros com mais de 11 anos de estudo formariam 50% desse contingente de desempregados.
"Mesmo com essa expansão do ensino e maior acesso ao curso superior, os trabalhadores brasileiros não estão conseguindo oferecer o conhecimento específico que as boas posições requerem", explica Márcia Almstrom, do grupo Manpower.
Causas
Especialistas consultados pela BBC Brasil apontam três causas principais para a decepção com a "geração do diploma".
A principal delas estaria relacionada a qualidade do ensino e habilidades dos alunos que se formam em algumas faculdades e universidades do país.
Os números de novos estabelecimentos do tipo criadas nos últimos anos mostra como os empresários consideram esse setor promissor. Em 2000, o Brasil tinha pouco mais de mil instituições de ensino superior. Hoje são 2.416, sendo 2.112 particulares.
"Ocorre que a explosão de escolas superiores não foi acompanhada pela melhoria da qualidade. A grande maioria das novas faculdades é ruim", diz Pastore.
Tristan McCowan, professor de educação e desenvolvimento da Universidade de Londres, concorda. Há mais de uma década, McCowan estuda o sistema educacional brasileiro e, para ele, alguns desses cursos universitários talvez nem pudessem ser classificados como tal.
“São mais uma extensão do ensino fundamental", diz McCowan. "E o problema é que trazem muito pouco para a sociedade: não aumentam a capacidade de inovação da economia, não impulsionam sua produtividade e acabam ajudando a perpetuar uma situação de desigualdade, já que continua a ser vedado à população de baixa renda o acesso a cursos de maior prestígio e qualidade."
Para se ter a medida do desafio que o Brasil têm pela frente para expandir a qualidade de seu ensino superior, basta lembrar que o índice de anafalbetismo funcional entre universitários brasileiros chega a 38%, segundo o Instituto Paulo Montenegro (IPM), vinculado ao Ibope.
Estudantes (Foto BBC)
Especialistas questionam qualidade de novas faculdades no Brasil
Na prática, isso significa que quatro em cada dez universitários no país até sabem ler textos simples, mas são incapazes de interpretar e associar informações. Também não conseguem analisar tabelas, mapas e gráficos ou mesmo fazer contas um pouco mais complexas.
De 2001 a 2011, a porcentagem de universitários plenamente alfabetizados caiu 14 pontos - de 76%, em 2001, para 62%, em 2011. "E os resultados das próximas pesquisas devem confirmar essa tendência de queda", prevê Ana Lúcia Lima, diretora-executiva do IPM.
Segundo Lima, tal fenômeno em parte reflete o fato da expansão do ensino superior no Brasil ser um processo relativamente recente e estar levando para bancos universitários jovens que não só tiveram um ensino básico de má qualidade como também viveram em um ambiente familiar que contribuiu pouco para sua aprendizagem.
"Além disso, muitas instituições de ensino superior privadas acabaram adotando exigências mais baixas para o ingresso e a aprovação em seus cursos", diz ela. "E como consequência, acabamos criando uma escolaridade no papel que não corresponde ao nível real de escolaridade dos brasileiros."
Postura e experiência
A segunda razão apontada para a decepção com a geração de diplomados estaria ligada a “problemas de postura” e falta de experiência de parte dos profissionais no mercado.
“Muitos jovens têm vivência acadêmica, mas não conseguem se posicionar em uma empresa, respeitar diferenças, lidar com hierarquia ou com uma figura de autoridade”, diz Marcus Soares, professor do Insper especialista em gestão de pessoas.
“Entre os que se formam em universidades mais renomadas também há certa ansiedade para conseguir um posto que faça jus a seu diploma. Às vezes o estagiário entra na empresa já querendo ser diretor.”
As empresas, assim, estão tendo de se adaptar ao desafio de lidar com as expectativas e o perfil dos novos profissionais do mercado – e em um contexto de baixo desemprego, reter bons quadros pode ser complicado.
Para Marcelo Cuellar, da consultoria de recursos humanos Michael Page, a falta de experiência é, de certa forma natural, em função do recente ciclo de expansão econômica brasileira.
"Tivemos um boom econômico após um período de relativa estagnação, em que não havia tanta demanda por certos tipos de trabalhos. Nesse contexto, a escassez de profissionais experientes de determinadas áreas é um problema que não pode ser resolvido de uma hora para outra", diz Cuellar.
Nos últimos anos, muitos engenheiros acabaram trabalhando no setor financeiro, por exemplo.
"Não dá para esperar que, agora, seja fácil encontrar engenheiros com dez ou quinze anos de experiência em sua área – e é em parte dessa escassez que vem a percepção dos empresários de que ‘não tem ninguém bom’ no mercado", acredita o consultor.
'Tradição baicharelesca'
Por fim, a terceira razão apresentada por especialistas para explicar a decepção com a “geração do diploma” estaria ligada a um desalinhamento entre o foco dos cursos mais procurados e as necessidades do mercado.
"É bastante disseminada no Brasil a ideia de que cargos de gestão pagam bem e cargos técnicos pagam mal. Mas isso está mudando – até porque a demanda por profissionais da área técnica tem impulsionado os seus salários."
Gabriel Rico
De um lado, há quem critique o fato de que a maioria dos estudantes brasileiros tende a seguir carreiras das ciências humanas ou ciências sociais - como administração, direito ou pedagogia - enquanto a proporção dos que estudam ciências exatas é pequena se comparada a países asiáticos ou alguns europeus.
“O Brasil precisa de mais engenheiros, matemáticos, químicos ou especialistas em bioquímica, por exemplo, e os esforços para ampliar o número de especialistas nessas áreas ainda são insuficientes”, diz o diretor-executivo da Câmara Americana de Comércio (Amcham), Gabriel Rico.
Segundo Rico, as consequências dessas deficiências são claras: “Em 2011 o país conseguiu atrair importantes centros de desenvolvimento e pesquisas de empresas como a GE a IBM e a Boeing”, ele exemplifica. “Mas se não há profissionais para impulsionar esses projetos a tendência é que eles percam relevância dentro das empresas.”
Do outro lado, também há críticas ao que alguns vêem como um excesso de valorização do ensino superior em detrimento das carreiras de nível técnico.
“É bastante disseminada no Brasil a ideia de que cargos de gestão pagam bem e cargos técnicos pagam mal. Mas isso está mudando – até porque a demanda por profissionais da área técnica tem impulsionado os seus salários”, diz o consultor.
Rafael Lucchesi concorda. "Temos uma tradição cultural baicharelesca, que está sendo vencida aos poucos”, diz o diretor da CNI – que também é o diretor-geral do Senai (Serviço Nacional da Indústria, que oferece cursos técnicos).
Segundo Lucchesi, hoje um operador de instalação elétrica e um técnico petroquímico chegam a ganhar R$ 8,3 mil por mês. Da mesma forma, um técnico de mineração com dez anos de carreira poderia ter um salário de R$ 9,6 mil - mais do que ganham muitos profissionais com ensino superior.
“Por isso, já há uma procura maior por essas formações, principalmente por parte de jovens da classe C, mas é preciso mais investimentos para suprir as necessidades do país nessa área”, acredita.
Ruth Costas
Da BBC Brasil
Número de instituições de ensino superior mais que dobrou desde 2001
Nunca tantos brasileiros chegaram às salas de aula das universidades, fizeram pós-graduação ou MBAs. Mas, ao mesmo tempo, não só as empresas reclamam da oferta e qualidade da mão-de-obra no país como os índices de produtividade do trabalhador custam a aumentar.
Na última década, o número de matrículas no ensino superior no Brasil dobrou, embora ainda fique bem aquém dos níveis dos países desenvolvidos e alguns emergentes. Só entre 2011 e 2012, por exemplo, 867 mil brasileiros receberam um diploma, segundo a mais recente Pesquisa Nacional de Domicílio (Pnad) do IBGE.
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“Mas mesmo com essa expansão, na indústria de transformação, por exemplo, tivemos um aumento de produtividade de apenas 1,1% entre 2001 e 2012, enquanto o salário médio dos trabalhadores subiu 169% (em dólares)", diz Rafael Lucchesi, diretor de educação e tecnologia na Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A decepção do mercado com o que já está sendo chamado de "geração do diploma" é confirmada por especialistas, organizações empresariais e consultores de recursos humanos.
"Os empresários não querem canudo. Querem capacidade de dar respostas e de apreender coisas novas. E quando testam isso nos candidatos, rejeitam a maioria", diz o sociólogo e especialista em relações do trabalho da Faculdade de Economia e Administração da USP, José Pastore.
Entre empresários, já são lugar-comum relatos de administradores recém-formados que não sabem escrever um relatório ou fazer um orçamento, arquitetos que não conseguem resolver equações simples ou estagiários que ignoram as regras básicas da linguagem ou têm dificuldades de se adaptar às regras de ambientes corporativos.
"Cadastramos e avaliamos cerca de 770 mil jovens e ainda assim não conseguimos encontrar candidatos suficientes com perfis adequados para preencher todas as nossas 5 mil vagas", diz Maíra Habimorad, vice-presidente do DMRH, grupo do qual faz parte a Companhia de Talentos, uma empresa de recrutamento. "Surpreendentemente, terminanos com vagas em aberto."
Outro exemplo de descompasso entre as necessidades do mercado e os predicados de quem consegue um diploma no Brasil é um estudo feito pelo grupo de Recursos Humanos Manpower. De 38 países pesquisados, o Brasil é o segundo mercado em que as empresas têm mais dificuldade para encontrar talentos, atrás apenas do Japão.
É claro que, em parte, isso se deve ao aquecimento do mercado de trabalho brasileiro. Apesar da desaceleração da economia, os níveis de desemprego já caíram para baixo dos 6% e têm quebrado sucessivos recordes de baixa.
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Produtividade da industria aumentou apenas 1,1% na última década, segundo a CNI
Mas segundo um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) divulgado nesta semana, os brasileiros com mais de 11 anos de estudo formariam 50% desse contingente de desempregados.
"Mesmo com essa expansão do ensino e maior acesso ao curso superior, os trabalhadores brasileiros não estão conseguindo oferecer o conhecimento específico que as boas posições requerem", explica Márcia Almstrom, do grupo Manpower.
Causas
Especialistas consultados pela BBC Brasil apontam três causas principais para a decepção com a "geração do diploma".
A principal delas estaria relacionada a qualidade do ensino e habilidades dos alunos que se formam em algumas faculdades e universidades do país.
Os números de novos estabelecimentos do tipo criadas nos últimos anos mostra como os empresários consideram esse setor promissor. Em 2000, o Brasil tinha pouco mais de mil instituições de ensino superior. Hoje são 2.416, sendo 2.112 particulares.
"Ocorre que a explosão de escolas superiores não foi acompanhada pela melhoria da qualidade. A grande maioria das novas faculdades é ruim", diz Pastore.
Tristan McCowan, professor de educação e desenvolvimento da Universidade de Londres, concorda. Há mais de uma década, McCowan estuda o sistema educacional brasileiro e, para ele, alguns desses cursos universitários talvez nem pudessem ser classificados como tal.
“São mais uma extensão do ensino fundamental", diz McCowan. "E o problema é que trazem muito pouco para a sociedade: não aumentam a capacidade de inovação da economia, não impulsionam sua produtividade e acabam ajudando a perpetuar uma situação de desigualdade, já que continua a ser vedado à população de baixa renda o acesso a cursos de maior prestígio e qualidade."
Para se ter a medida do desafio que o Brasil têm pela frente para expandir a qualidade de seu ensino superior, basta lembrar que o índice de anafalbetismo funcional entre universitários brasileiros chega a 38%, segundo o Instituto Paulo Montenegro (IPM), vinculado ao Ibope.
Estudantes (Foto BBC)
Especialistas questionam qualidade de novas faculdades no Brasil
Na prática, isso significa que quatro em cada dez universitários no país até sabem ler textos simples, mas são incapazes de interpretar e associar informações. Também não conseguem analisar tabelas, mapas e gráficos ou mesmo fazer contas um pouco mais complexas.
De 2001 a 2011, a porcentagem de universitários plenamente alfabetizados caiu 14 pontos - de 76%, em 2001, para 62%, em 2011. "E os resultados das próximas pesquisas devem confirmar essa tendência de queda", prevê Ana Lúcia Lima, diretora-executiva do IPM.
Segundo Lima, tal fenômeno em parte reflete o fato da expansão do ensino superior no Brasil ser um processo relativamente recente e estar levando para bancos universitários jovens que não só tiveram um ensino básico de má qualidade como também viveram em um ambiente familiar que contribuiu pouco para sua aprendizagem.
"Além disso, muitas instituições de ensino superior privadas acabaram adotando exigências mais baixas para o ingresso e a aprovação em seus cursos", diz ela. "E como consequência, acabamos criando uma escolaridade no papel que não corresponde ao nível real de escolaridade dos brasileiros."
Postura e experiência
A segunda razão apontada para a decepção com a geração de diplomados estaria ligada a “problemas de postura” e falta de experiência de parte dos profissionais no mercado.
“Muitos jovens têm vivência acadêmica, mas não conseguem se posicionar em uma empresa, respeitar diferenças, lidar com hierarquia ou com uma figura de autoridade”, diz Marcus Soares, professor do Insper especialista em gestão de pessoas.
“Entre os que se formam em universidades mais renomadas também há certa ansiedade para conseguir um posto que faça jus a seu diploma. Às vezes o estagiário entra na empresa já querendo ser diretor.”
As empresas, assim, estão tendo de se adaptar ao desafio de lidar com as expectativas e o perfil dos novos profissionais do mercado – e em um contexto de baixo desemprego, reter bons quadros pode ser complicado.
Para Marcelo Cuellar, da consultoria de recursos humanos Michael Page, a falta de experiência é, de certa forma natural, em função do recente ciclo de expansão econômica brasileira.
"Tivemos um boom econômico após um período de relativa estagnação, em que não havia tanta demanda por certos tipos de trabalhos. Nesse contexto, a escassez de profissionais experientes de determinadas áreas é um problema que não pode ser resolvido de uma hora para outra", diz Cuellar.
Nos últimos anos, muitos engenheiros acabaram trabalhando no setor financeiro, por exemplo.
"Não dá para esperar que, agora, seja fácil encontrar engenheiros com dez ou quinze anos de experiência em sua área – e é em parte dessa escassez que vem a percepção dos empresários de que ‘não tem ninguém bom’ no mercado", acredita o consultor.
'Tradição baicharelesca'
Por fim, a terceira razão apresentada por especialistas para explicar a decepção com a “geração do diploma” estaria ligada a um desalinhamento entre o foco dos cursos mais procurados e as necessidades do mercado.
"É bastante disseminada no Brasil a ideia de que cargos de gestão pagam bem e cargos técnicos pagam mal. Mas isso está mudando – até porque a demanda por profissionais da área técnica tem impulsionado os seus salários."
Gabriel Rico
De um lado, há quem critique o fato de que a maioria dos estudantes brasileiros tende a seguir carreiras das ciências humanas ou ciências sociais - como administração, direito ou pedagogia - enquanto a proporção dos que estudam ciências exatas é pequena se comparada a países asiáticos ou alguns europeus.
“O Brasil precisa de mais engenheiros, matemáticos, químicos ou especialistas em bioquímica, por exemplo, e os esforços para ampliar o número de especialistas nessas áreas ainda são insuficientes”, diz o diretor-executivo da Câmara Americana de Comércio (Amcham), Gabriel Rico.
Segundo Rico, as consequências dessas deficiências são claras: “Em 2011 o país conseguiu atrair importantes centros de desenvolvimento e pesquisas de empresas como a GE a IBM e a Boeing”, ele exemplifica. “Mas se não há profissionais para impulsionar esses projetos a tendência é que eles percam relevância dentro das empresas.”
Do outro lado, também há críticas ao que alguns vêem como um excesso de valorização do ensino superior em detrimento das carreiras de nível técnico.
“É bastante disseminada no Brasil a ideia de que cargos de gestão pagam bem e cargos técnicos pagam mal. Mas isso está mudando – até porque a demanda por profissionais da área técnica tem impulsionado os seus salários”, diz o consultor.
Rafael Lucchesi concorda. "Temos uma tradição cultural baicharelesca, que está sendo vencida aos poucos”, diz o diretor da CNI – que também é o diretor-geral do Senai (Serviço Nacional da Indústria, que oferece cursos técnicos).
Segundo Lucchesi, hoje um operador de instalação elétrica e um técnico petroquímico chegam a ganhar R$ 8,3 mil por mês. Da mesma forma, um técnico de mineração com dez anos de carreira poderia ter um salário de R$ 9,6 mil - mais do que ganham muitos profissionais com ensino superior.
“Por isso, já há uma procura maior por essas formações, principalmente por parte de jovens da classe C, mas é preciso mais investimentos para suprir as necessidades do país nessa área”, acredita.
sábado, 5 de outubro de 2013
O SOLITÁRIO
Como alguém que por mares desconhecidos viajou,
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria;
os dias cheios estão sobre as suas mesas
mas para mim a distância é puro sonho.
Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
tão desabitado talvez como uma lua;
mas eles não deixam um único pensamento só,
e todas as suas palavras são habitadas.
As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas —:
na sua vasta pátria são feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha.
Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria;
os dias cheios estão sobre as suas mesas
mas para mim a distância é puro sonho.
Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
tão desabitado talvez como uma lua;
mas eles não deixam um único pensamento só,
e todas as suas palavras são habitadas.
As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas —:
na sua vasta pátria são feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha.
Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira
EXERCÍCIO DA CIDADANIA REQUER APRENDIZAGEM E PRÁTICA
Transformar princípios e valores em atitudes que beneficiam toda a sociedade é um exemplo de cidadania
Agência USP
Atitudes como não jogar lixo na rua, dar lugar ao idoso em meios de transporte coletivo e esperar que as pessoas saiam do metrô antes de entrar são questões corriqueiras na vida da população que se encaixam perfeitamente na concepção de cidadania pretendida pelo cientista jurídico Ovídio Jairo Rodrigues Mendes. "No entanto, pela correria diária, essas atitudes não são observadas e acabam por se tornar problemas sociais. E a cidadania requer aprendizagem e prática, sob pena de funcionar como mero rótulo", destaca.
Mendes estudou o tema em sua dissertação de mestrado " Concepção da Cidadania", apresentada em 2010 na Faculdade de Direito (FD) da USP. De acordo com o cientista jurídico, simbolicamente, comportar-se como cidadão implica em quatro momentos: o surgimento do problema social (questões que afetam a comunidade), entendimento e análise lógica desta questão, procura racional de uma solução adequada para o caso, e a confirmação, para o cidadão, de que a solução encontrada satisfaz o problema social enfrentado.
Para Mendes a questão da cidadania está, hoje, mais vinculada a uma relação de consumo do que a um processo de formação de personalidade. "Quando a pessoa vai fazer um documento no Poupatempo, ela pega um pedaço de papel e, com este ato, se considera um pouco mais cidadã. Mas cidadania não é isso: é viver em harmonia com o outro, transformar princípios e valores em atitudes que não beneficiam só interesses individuais, mas interesses coletivos. Por exemplo, eu varro a rua para evitar que o lixo se acumule e prejudique tanto a mim quanto aos meus vizinhos", explica.
Segundo o pesquisador, a concepção de cidadania adquire seu formato de acordo com o problema a afligir a comunidade. O jurista argumenta que "talvez por isso seja tão difícil ser cidadão, principalmente em um país de tradição democrática recente como o Brasil e onde a educação formal não é valorada como elemento fundamental na diferenciação entre 'súdito' [aquele que simplesmente segue a vontade do governante] e 'cidadão' [capacidade para procurar e agir de maneira mais autônoma possível em prol de interesses próprios, limitado tão somente pelo ordenamento legal e pelo respeito ao bem comum]".
A pesquisa de Mendes não teve a intenção de limitar-se à doutrina jurídicas (teorias de direito) e à jurisprudência (decisões do tribunais). O foco foi direcionado para "buscar uma maneira de elaborar uma teoria que o público comum e não só cientistas jurídicos ou pessoas esclarecidas se identificassem para uma conceituação do que seja cidadania".
Para realizar o estudo, o cientista jurídico considerou diferentes tipos de narrativa sobre a conceituação de cidadania nas teoria dos filósofos Aristóteles, Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau; passando a uma análise das transformações sofridas pela concepção do termo no pós-independência no Brasil Império, no Estado Novo e no processo de redemocratização do Brasil, considerando questões políticas e econômicas; para, ao final, levantar algumas hipóteses sobre a espetacularização da cidadania e a transformação dos cidadãos em plateias para projetos de poder de políticos profissionais, principalmente na fase brasileira atual.
Segundo o pesquisador, o estudo não intenciona julgar as sociedades dos teóricos pesquisados e suas concepções de cidadania, mas sim apenas tê-las como modelo-padrão para a formação de um conceito baseado em valores e princípios simples de vida em sociedade, como o respeito ao outro e o respeito à liberdade.
Mendes assinala que a concepção de cidadania para não ser apenas formal, requer a capacidade de a pessoa dispor de objetivos racionalmente possíveis de como tornar concretos seus ideais. "Como toda regra, a formulação teórica de uma concepção de cidadania tem como primeiro passo a intuição para a identificação de regras sobre o assunto dentro da Constituição ou de leis inferiores, tornando a sua definição mais palpável ou palatável ao cidadão comum ", diz.
Visão egocêntrica de mundo
O pesquisador, no entanto, não se limita a questões individuais. "Muitas decisões governamentais não privilegiam a sociedade como um todo, mas o interesse de setores da população", conta. Ele cita o atual discurso de muitos meios de comunicação, sobre diversos acontecimentos cotidianos, como acidentes, enchentes, crimes. "Esse discurso vale-se de argumentações opinativas e não da lógica, e só acabam por inflamar a teia de queixas e reclamações vazias. Assim, os 'cidadãos' reclamam da ausência do Estado porque precisam encontrar um culpado pois pagam impostos e, por isso, devem ser servidos; enquanto que, do outro lado, o Estado se defende das reclamações, acusando os cidadãos de serem os provocadores para todas as desgraças cotidianas", destaca.
"A culpa está ao mesmo tempo dos dois lados. Falta a consciência de cada um ou uma orientação que esclareça dentro do conceito de cidadania a diferença entre achismos e racionalidade. O achismo é o não viver, pois não há reflexão; a racionalidade é ter a capacidade de interagir, de buscar causas e soluções, que se proponham críticas e equilibradas quanto a interesses individuais e coletivos", conclui.
domingo, 29 de setembro de 2013
OS QUE FAZEM A DIFERENÇA
Conta-se que após um feriado prolongado, o professor entrou na sala da Universidade para dar sua aula, mas os alunos estavam ansiosos para contar as novidades aos colegas e a excitação era geral. Depois de tentar,educadamente, por várias vezes, conseguir a atenção dos alunos para a aula, o professor perdeu a paciência e disse: “Prestem atenção porque eu vou falar isso uma única vez”. Um silêncio carregado de culpa se instalou na sala e o professor continuou.”Desde que comecei a lecionar, e isso já faz muitos anos, descobri que nós professores trabalhamos apenas 5% dos alunos de uma turma. Em todos esses anos observei que, de cada cem alunos apenas cinco fazem realmente alguma diferença no futuro. Apenas cinco se tornam profissionais brilhantes e contribuem de forma significativa para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Os outros 95% servem apenas para fazer volume; são medíocres e passam pela vida sem deixar nada de útil.
O interessante é que esta porcentagem vale para todo o mundo. Se vocês prestarem atenção notarão que, de cem professores, apenas cinco são aqueles que fazem a diferença. De cem garçons, apenas cinco são excelentes; de cem motoristas de táxi, apenas cinco são verdadeiros profissionais; de 100 conhecidos, quando muito, 5 são verdadeiros amigos, fraternos e de absoluta confiança. E podemos generalizar ainda mais: de cem pessoas, apenas cinco são verdadeiramente especiais.
É uma pena não termos como separar estes 5% do resto, pois se isso fosse possível eu deixaria apenas os alunos especiais nesta sala e colocaria os demais para fora. Assim, então, teria o silêncio necessário para dar uma boa aula e dormiria tranqüilo, sabendo ter investido nos melhores. Mas,infelizmente não há como saber quais de vocês são estes alunos. Só o tempo é capaz de mostrar isso. Portanto, terei de me conformar e tentar dar uma aula para os alunos especiais, apesar da confusão que estará sendo feita pelo resto.
Claro que cada um de vocês sempre pode escolher a qual grupo pertencerá. Obrigado pela atenção e vamos à aula de hoje”. O silêncio se instalou na sala e o nível de atenção foi total. Afinal, nenhum dos alunos desejava fazer parte do “resto”, e sim, do grupo daqueles que realmente fazem a diferença. Mas, como bem lembrou o sábio professor, só o tempo dirá a que grupo cada um pertencerá. Só a atuação diária de cada pessoa a classificará, de fato, num ou noutro grupo.
Pense nisso! Se você deseja pertencer ao grupo dos que realmente fazem a diferença, procure ser especial em tudo o que faz. Desde um simples bilhete que escreve, às coisas mais importantes, faça com excelência. Seja fazendo uma faxina, atendendo um cliente, cuidando de uma criança ou de um idoso, limpando um jardim ou fazendo uma cirurgia, seja especial. Para ser alguém que faz a diferença, não importa o que você faz, mas como faz. Ou você faz tudo da melhor forma possível, ou fará parte do “resto”.
Pense nisso e seja alguém que faz a diferença… Alguém que com sua ação torna a vida das pessoas melhores.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Grupo quer 'atualizar' símbolo de acesso a deficientes
O novo símbolo (dir), do Accessible Icon Project, quer
retratar um deficiente mais proativo
O símbolo que representa uma pessoa em uma cadeira de rodas
se tornou um dos ícones mais usados e instantaneamente reconhecidos no mundo
para representar deficientes físicos. Em circulação desde 1969, esse
"símbolo internacional de acessibilidade" está presente no transporte
coletivo, em vagas de estacionamento e em milhões de edifícios.
Mas um grupo de designers americanos autodenominado
Accessible Icon Project quer, agora, dar a ele um "ar" mais atual -
ou mesmo paraolímpico.
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Seu novo desenho é baseado no antigo, mas mostra a figura
inclinando-se para a frente, ativamente empurrando sua cadeira de rodas.
A ideia por trás disso é que o antigo desenho "tem
pernas e braços que parecem mecânicos, sua postura é ereta de forma não natural
e seu visual completo torna visível a cadeira de rodas, e não a pessoa",
diz o site do grupo.
O novo ícone começou a ser usado como uma espécie de
"arte de guerrilha" em um campus universitário em Boston, diz a
artista Sara Henson, palestrante na Escola de Design de Rhode Island.
Segundo ela, o desenho é "uma metáfora de
autodeterminação" e o antigo símbolo já se tornou praticamente invisível
para as pessoas.
O ícone do projeto começou a despertar interesse em
diferentes partes do mundo, dos EUA à América Latina e à Índia.
"Estamos ansiosamente de olho no que acontece em Nova
York, cidade que disse que implementaria o novo símbolo, mas está atualmente na
fase da burocracia", diz Hendron. "Enquanto isso, recebemos (pedidos)
de outras cidades, bem como de organizações e instituições."
Dúvida
Mas a adoção do símbolo depende de diversos fatores.
Barry Gray integra o comitê de símbolos gráficos da
Organização Internacional de Padronização (ISO, na sigla em inglês). Ele gosta
da ideia de Hendron, mas alega que seu significado não está claro.
Estacionamento para
deficientes
Ícone tradicional está presente em estacionamentos e
edifícios do mundo inteiro
"A ideia do design está relacionada a uma cadeira de
rodas em velocidade, mas não estamos tentando criar um símbolo de uma cadeira
de corridas", argumenta. "Tenta-se passar a ideia de que o caminho
sinalizado é por onde você entra no prédio, e não por onde você vai sair em
disparada."
E há outra questão envolvendo o símbolo antigo, e não
necessariamente resolvida pelo novo: ele representa um usuário de cadeira de
rodas, mas foi criado para simbolizar acesso também para deficientes visuais e
outros que não necessariamente usem a cadeira.
A artista visual Caroline Cardus defende que o símbolo
global sequer tenha a cadeira. "Se as demais deficiências não estão
representadas, a mensagem subliminar é de que, se o local é adaptado para
cadeiras de rodas, então os demais podem se virar - e isso não ajuda em
nada."
Cardus acha que a acessibilidade talvez possa ser
representada por símbolos que incluam a letra "A" - ou a letra pela
qual a palavra acessibilidade comece em cada idioma. E sugere que incorpore,
por exemplo, cores de fundo para dar informações extras, como se o local tem ou
não degraus.
Dificuldades
Gray, por sua vez, diz que há conversas para melhorar a
identificação de acessibilidade de um local para, por exemplo, pessoas com
deficiências mentais - mas alega que isso é muito difícil de descrever
visualmente.
O símbolo de uma orelha, por exemplo, indica a presença de
sistemas de auxílio auditivo; e outros símbolos mais específicos de
acessibilidade começam a se popularizar. Gray cita, entre eles, o ícone de uma
pessoa segurando a mão da outra, que serve para indicar a existência de pontos
de ajuda para pessoas com dificuldades cognitivas.
E Hendron admite que há limites para o que pode ser obtido
com símbolos gráficos: "Não uso muito saias, mas o ícone de banheiros
femininos costuma ser o da mulher de saia. Há um problema nisso? Provavelmente,
mas é uma falha que eu aceito porque (o símbolo) me permite identificá-lo
rapidamente."
domingo, 22 de setembro de 2013
CUIDADO COM IDOSOS - INVESTIMENTO
O número de pessoas idosas que precisam de cuidados no mundo todo deve praticamente triplicar em 2050, segundo um estudo divulgado pela organização Alzheimer Disease International.
O número de pessoas nessa situação saltará de 101 milhões para 277 milhões até lá, parte delas também sofrendo demência. Tanto que o relatório reforça o alerta para uma "epidemia global de Alzheimer".
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Saúde
O Mal de Alzheimer é a causa mais comum de demência, cujos sintomas incluem perda de memória, mudança de humor, problemas com comunicação e de raciocínio.
De acordo com o estudo, países como Índia e China sofrerão duros golpes, e precisam começar a planejar como lidar com o problemas.
Isso porque mais da metade das mais de 35 milhões de pessoas que sofrem com demência em todo o mundo estão em país de renda média ou baixa, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde).
Segundo o autor do relatório, Martin Prince, professor do Instituto de Psiquiatria do King's College de Londres, "as mudanças sociais e econômicas que estão ocorrendo nesses países vão, inevitavelmente, fazer com que seja reduzido o número de familiares disponíveis para cuidar dos idosos."
"Entre esses fatores está a redução das taxas de fertilidade, o que significam que as pessoas terão menos filhos (para cuidar delas na velhice), e o fato de que as mulheres estão estudando mais e integrando cada vez mais o mercado de trabalho, deixando-a menos disponível para fornecer esse tipo de cuidado."
Apoio maior
O estudo revela ainda que à medida que a população envelhece, o sistema tradicional de cuidar dessas pessoas – feito de maneira informal pela família, amigos e comunidade – vai precisar de um apoio muito maior.
Ainda segundo o relatório, um pouco mais que uma em cada dez pessoas acima de 60 anos precisa de cuidados a longo prazo, tais como ajuda diária em tarefas como tomar banho, alimentar-se, vestir-se e usar o banheiro.
Isso pode ser um fardo para famílias, já que muitos dos parentes que cuidam do idoso precisar deixar o trabalho.
Tratar e cuidar de pessoas com demência custa atualmente 376 bilhões de libras (o equivalente a R$ 1,3 trilhão por ano), incluindo custos previdenciários, gastos na área de saúde, além da redução de ganhos.
O relatório faz diversas recomendações, como fornecer "gratificações financeiras apropriadas" para cuidadores, profissionais ou familiares.
Também sugere monitorar a qualidade do tratamento tanto em casas de repouso como o fornecido pela comunidade.
Segundo a organização britânica Alzheimer's Society, a demência é a maior crise na área de saúde que o mundo enfrenta atualmente. "Esse relatório é um alerta para governos mundo afora sobre a urgência de se investir mais em cuidado e apoio."
UM MUNDO TRANSPARENTE
Li uma vez uma lenda na qual se contava o seguinte:
Um gênio descobriu o poder da comunicação pelo pensamento. No início, foi uma delícia poder falar sem sons - sem gemidos, lágrimas, sussurros e sorrisos. Como no cinema mudo, as pessoas exultavam com o fato de comunicar-se pelo cérebro. Bastava pensar numa pessoa e, pronto! - fazia-se o contato. Mas logo os homens, com sua habitual incongruência e, como disse Machado de Assis, sua sistemática ingratidão, ficaram infelizes. Pois descobriram o vazio do silêncio (que só existe quando há barulho) e viram como ele era não apenas grato, mas essencial. Se não era fácil viver num mundo ruidoso, no qual os sentimentos e as palavras de ordem superavam a compreensão, não era fácil viver num universo no qual a comunicação era radical, completa e transparente. Pois, com o pensamento, nada ficava oculto, nada permanecia escondido e os mal-entendidos que inventam os ódios e os amores; a fé que produz os milagres e os poemas; os primitivos "acho que você não me entendeu..."; os selvagens "mas essa não era minha intenção..."; os rústicos "eu sempre quis te dizer isso, mas teu marido estava por perto..."; e os contratos desapareceram.
O pensamento - invisível e inaudível, sinuoso, permanente, incontrolável e invasivo como uma enchente - tornava a compreensão entre os seres humanos um ato absoluto. E, justamente por isso, ele impedia tudo, principalmente os sentimentos. Os primeiros a serem liquidados foram atos fundamentais: o fingir, o disfarçar e o mentir. E, sem poder mentir, houve uma tal sinceridade que a individualidade, com suas escolhas e seus planos essencialmente secretos; as paixões, com suas fúrias, inibições e gozos; e as esperanças, com suas expectativas, desvaneceram-se. E assim muita gente se matou, especialmente no governo, nas igrejas e na universidade. Muitos isolaram-se em casas com paredes de chumbo que, descobriu-se, tornavam fracas as ondas mentais, diminuindo, mas infelizmente não impedindo, a telepatia e a tragicomédia de um entendimento total, completo e absoluto.
Em poucos anos, o drama que é justamente o que jaz eternamente entre o dito e o não dito; o que fica encerrado dentro de cada qual sem ruído ou palavra; ou o que se transforma em silêncio ou suspiro reprimido, tornou-se coisa do passado, e as pessoas ficaram muito amargas e tristes porque não havia mais a distinção entre o manifesto e o oculto, de modo que a comédia e o riso ficaram escassos. E, sem riso e comédia, sumiram igualmente as lágrimas e o choro, pois não havia mais o que se poderia exprimir além dos pensamentos. Ou melhor, sem as palavras e os seus sons, não havia mais a vontade de exprimir sentimentos, os quais dependiam exatamente das palavras, pois, como se sabe, nenhuma sentença verbal ou canto traduz uma amizade, um desejo, um perdão, uma bênção, um ódio ou uma esperança. Sem sons, o ato de dar, de receber e de retribuir palavras, músicas, brindes, beijos e presentes sumiu. As descontinuidades entre os sons foram suprimidas pelas continuidades dos pensamentos, o que fez com que a humanidade fosse atingida por um enorme silêncio, pois ninguém precisava produzir sons para implorar, dar, perdoar, perguntar, discutir, rir, protestar ou jogar conversa fora. Viviam todos num silêncio profundo lançando mensagens telepáticas uns aos outros e, quando souberam que seus ancestrais usavam da fala para a comunicação, ficaram intrigados e com inveja. Foram ouvir o mar e os ventos cujos sons lhes pareceram encantadores.
Como todas as portas humanas, a novidade da telepatia também trouxe seus problemas, pois o pensamento decorria de línguas naturais que eram variadas, mas que, com a evolução da comunicação pelo pensamento, perderam seus lastros, suas concretudes e suas diferenças. Agora ninguém podia dizer aquilo que só poderia ser dito em inglês, alemão, russo, português, tupi ou chinês. A universalização absoluta do telepático produziu uma perda irreparável nos modos de dizer porque o pensamento puro se fazia numa só língua: uma espécie de Esperanto que juntava todos os idiomas vivos e mortos, antigos e modernos, mas que não era língua nenhuma. Dizem que a partir da telepatia, a poesia, a literatura, a música e os mitos acabaram.
E os homens, como sempre, arrependeram-se e pediram de volta as suas línguas antigas que permitiam o milagre das compreensões sempre incompreendidas. Mas era tarde demais....
Roberto Damatta
sábado, 21 de setembro de 2013
VERDADE
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
(DRUMMOND, 1984)
domingo, 15 de setembro de 2013
A FILOSOFIA DO AMOR
Correm as fontes ao rio
os rios correm ao mar
num enlace fugidio
prendem-se as brisas no ar…
Nada no mundo é sozinho:
por sublime lei do Céu,
tudo frui outro carinho…
Não hei-de alcançá-lo eu?
Olha os montes adorando
o vasto azul, olha as vagas
uma a outra se osculando
todas abraçando as fragas…
Vivos, rútilos desejos,
no sol ardente os verás:
-Que me fazem tantos beijos,
se tu a mim mos não dás?
Percy Bysshe Shelley
1792-1822
O PROFISSIONALISMO COMO RELIGIÃO
Logo que mudei para a França, tive de levar meu carro para consertar. Ao buscá-lo, perguntei se havia ficado bom. O mecânico não entendeu. Na cabeça dele, se entregou a chave e a conta, nada mais a esclarecer sobre o conserto. Mais à frente, decidi atapetar um quartinho. O tapeceiro propôs uma solução que me pareceu complicada. Perguntei se não poderia, simplesmente, colar o tapete. O homem se empertigou: ”O senhor pode colar, mas, como sou profissional, eu não posso fazer isso”. Pronunciou a palavra “profissional” com solenidade e demarcou um fosso entre o que permite a prática consagrada e o que lambões e pobres mortais como eu podem perpetrar.
Acostumamo-nos com a idéia de que, se pagamos mais ou menos, conseguimos algo mais ou menos. Para a excelência, pagamos generosamente. Mas lembremo-nos das milenares corporações de ofício, com suas tradições e rituais. Na Europa, e alhures, aprender um ofício era como uma conversão religiosa. O aprendiz passava a acreditar naquela profissão e nos seus cânones. Padrões de qualidade eram cobrados durante todo o aprendizado. Ao fim do ciclo de sete anos, o aprendiz produzia a sua “obra prima” (obra primeira), a fim de evidenciar que atingira os níveis de perfeição exigidos. Em Troyes, na França, há um museu com as melhores peças elaboradas para demonstrar maestria na profissão. Carpinteiros alardeavam o seu virtuosismo pela construção meticulosa das suas caixas de ferramentas. Na Alemanha, sobrevivem em algumas corporações de ofício as vestimentas tradicionais. Para carpinteiros, terno de veludo preto, calça boca de sino e chapéu de aba larga. É com orgulho que exibem nas ruas esses trajes.
Essa incursão na história das corporações serve para realçar que nem só de mercado vive o mundo atual. Aqueles países com forte tradição de profissionalismo disso se beneficiam vastamente. Nada de fiscalizar para ver se ficou benfeito. O fiscal severo e intransigente está de prontidão dentro do profissional. É pena que os sindicatos, herdeiros das corporações, pouco se ocupem hoje de qualidade e virtuosismo. Se pagarmos com magnanimidade, o verdadeiro profissional executará a obra com perfeição. Se pagarmos miseravelmente, ele a executará com igual perfeição. É assim, ele só sabe fazer bem, pois incorporou a ideologia da perfeição. Não apenas não sabe fazer de qualquer jeito, mas sua felicidade se constrói na busca da excelência. Sociedades sem tradição de profissionalismo precisam de exércitos de tomadores de conta (que terminam por subtrair do que poderia ser pago a um profissional com sua própria fiscalização interior). Nelas, capricho é uma religião com poucos seguidores. Sai benfeito quando alguém espreita. Sai matado quando ninguém está olhando.
Existe relação entre o que pagamos e a qualidade obtida. Mas não é só isso. O profissionalismo define padrões de conduta e excelência que não estão à venda. Verniz sem rugas traz felicidade a quem o aplicou. Juntas não têm gretas, mesmo em locais que não estão à vista. Ou seja, foram feitas para a paz interior do marceneiro e não para o cliente, incapaz de perceber diferenças. A lâmina do formão pode fazer a barba do seu dono. O lanterneiro fica feliz se ninguém reconhece que o carro foi batido. Onde entra uma chave de estria, não se usa chave aberta na porca. Alicate nela? Nem pensar! Essa tradição de qualidade nas profissões manuais é caudatária das corporações medievais. Mas sobrevive hoje, em maior ou menor grau, em todo mundo do trabalho. O cirurgião quer fazer uma sutura perfeita. Para o advogado, há uma beleza indescritível em uma petição bem lavrada, que o cliente jamais notará. Quantas dezenas de vezes tive de retrabalhar os parágrafos deste ensaio?
Tudo funciona melhor em uma sociedade em que domina o profissionalismo de sua força de trabalho. Mas isso só acontecerá como resultado de muito esforço em lapidar os profissionais. Isso leva tempo e custa dinheiro. É preciso uma combinação harmônica entre aprender o gesto profissional, desenvolver a inteligência que o orienta e o processo quase litúrgico de transmissão dos valores do ofício.
Em tempo: amadores não formam profissionais.
TEXTO: CLAUDIO MOURA E CASTRO
domingo, 8 de setembro de 2013
O RELATÓRIO DE MR. SATURNINO
Contribuição de Claudio de Moura Castro: o relatório de Mr. Saturnino
Cláudio de Moura Castro, que dispensa apresentações, nos envia o seguinte texto, preparado para um livro comemorativo a ser publicado pela Linha Direta:
Saturno envia ao Brasil um disco voador. Para evitar as dificuldades de pronúncia, chamemos de Mr. Saturnino o chefe da missão exploratória do MEC de lá. Seus termos de referência: entender a nossa educação. Para isso, compra todas as revistas e periódicos sobre o assunto. Metodicamente, põe-se a analisar o que dizem.
Mr. Saturnino fica impressionadíssimo. Lê centenas de artigos exibindo teorias complexas e abstratas. Há duelos doutrinários, travados em linguagem rebuscada e adjetivação exaltada. Fala-se de Vygotsky, Piaget, Paulo Freire, Foucault, Habermas, Deleuze, e muitos outros. Denuncia-se a ‘sociedade disciplinar’, em coro com Foucault. Disparam-se estocadas nos ‘conteudistas’ (Mr Saturnino não entendeu o termo, mas concluiu que seriam pessoas abomináveis) e nos incautos que defendem um tal método fônico. Exalta-se o ‘espírito crítico’, a ‘transversalidade dos conhecimentos’ e a ‘formação do homem integral’. Que país avançado é esse Brasil!
E como deve ser boa a sua educação, já que tão doutos ‘scholars’ sequer julgam necessário deter-se nos seus resultados. De fato, não há registros de problemas dignos de nota – pelo menos, as revistas não os mencionam.
Embevecido, despacha para Saturno um relatório, sugerindo que lá se adotem as teorias discutidas tão calorosamente no Brasil.
Mas fazia parte dos termos de referência de sua missão visitar outros países mais ricos. Imagina ele que lá encontraria teorias ainda mais sofisticadas. Ordena ao seu piloto que faça um plano de vôo para visitar a Coréia e Cingapura, famosas pela excelência de suas escolas. Mas enquanto a tripulação checa mapas e rotas, alguém lembra que são países com uma pedagogia muito peculiar. Os educadores acreditam que basta sentar e estudar até aprender. O segredo do sucesso seria o caráter obsessivo dos estudantes. Uma aberração da personalidade.
Mr. Saturnino pede então planos de vôo para a Finlândia, país que teria a melhor educação no mundo e mais a França e Inglaterra, países com ensinos de enorme fama. Cansado de tantas teorias, organiza visitas às escolas desses países, para ver como conduzem suas salas de aula. A perplexidade toma conta de sua equipe.
As escolas adotam livros-texto e estes são usados metodicamente nas aulas, orientando o passo a passo da aprendizagem. Não é curioso que os educadores não se rebelem contra a tirania e autoritarismo dos manuais? Pelo pouco que entendeu do que seriam ‘conteudistas’, concluiu que na Europa os professores o são, cometendo uma horrenda heresia.
Havia lido que ‘a linguagem serve para articular a experiência do grupo que a usa, formando um modo de expressão que varia, dependendo da constituição desse grupo, de sua história e da própria evolução da linguagem’. Na Europa, o texto escrito tem um único significado que dever ser buscado pelo aluno e mostrado nas provas. Que falta de sensibilidade cultural!
Havia também aprendido no Brasil que ‘o aluno é um ser concreto, produto de uma realidade social e econômica, política e cultural. Essa realidade é o ponto de partida para o processo de apropriação do saber sistematizado, na busca de superação de uma visão desarticulada de mundo, em direção a uma consciência crítica. Nesse processo, o aluno desempenha o papel de construtor e reconstrutor do próprio conhecimento’. Mas Europa adota currículos oficiais e detalhados. O que acontece na sala de aula está indicado nos regulamentos ministeriais. Depois de ler tanto sobre o construtivismo, ficou chocado de constatar que, na Inglaterra, é o governo central quem decide as formas de ‘construir socialmente o conhecimento’. Pior, os regulamentos indicam o que ensinar, como ensinar e como distribuir o tempo da aula entre diferentes atividades.. Mais confusa ainda ficou a sua cabeça ao verificar que, com a introdução de tão abjeto detalhamento para as aulas, o ensino na Inglaterra havia dado um salto considerável.
Nota outra heresia. Nos países visitados, o método fônico é o único aceito pelas autoridades. Na França o método global foi até proibido pelo Ministro. Mr Saturnino fica abismado de ver que, na Cidade da Luz, pairam as trevas sobre os melhores métodos de alfabetização.
Ainda ressoando em sua cabeça as advertências de Foucault, mostrando que a escola (tal como prisões e quartéis) é uma ‘instituição de sequestro’. Mr. Saturnino fica abismado ao ver na França uma disciplina férrea na sala de aula: ninguém conversa. E os recalcitrantes se arriscam a uma reguada, aplicada com competência pela professora – e sob o beneplácito da lei. Tudo errado pensou, não leram a imperecível obra de Foucault, seu compatriota, onde denuncia uma escola onde há a necessidade de ‘criar mecanismos de vigilância e as conseqüentes punições para aqueles que, por um motivo ou outro, não se adaptassem a um modelo preestabelecido de perfeição humana’. Como é possível tal ignorância, se os longínquos brasileiros citam Foucault a cada momento?
E a interdisciplinaridade, conquista teórica irreversível de pensadores de vanguarda? Vejam só, adota-se uma grade curricular, onde cada professor ensina a sua disciplina, com mínimas visitas à ciência do vizinho. Pobres europeus, não descobriram que é preciso ‘romper com a segmentação e o fracionamento’ e, assim, ‘compreendê-lo como expressão e base do projeto político e pedagógico da escola, culturalmente determinado’.
No Brasil havia aprendido que a avaliação ‘será enriquecedora, desde que seja parte de um processo de construção de saberes e conhecimentos, sobre intencionalidades e conteúdos, metodologias e fins propostos com conseqüentes tomadas de decisão’. A bem da verdade, não estava seguro haver entendido, mas ficou impressionado com a erudição. Foi um choque ver na Europa ‘ditados’, ‘para casa’, provas e redação (esta última, com estrutura fixa e definida no currículo nacional). Competem todos febrilmente pelas notas e até pelas medalhas. Um brasileiro havia se queixado de que ‘parte de nossa sociedade ainda utiliza régua e compasso para medir os indivíduos em função de suas conquistas’. Mas na Europa, é a régua e compasso para todos (e as vezes, a régua sozinha, para golpear a munheca do infrator). Uma lástima.
Ainda mais decepcionante foi ver como funciona a burocracia escolar da Europa. Os diretores são escolhidos pelo Ministério da Educação, sem qualquer consulta às bases. Os diretores ousam mandar, tampouco consultando alunos ou professores. No Brasil, Mr. Saturnino havia prestado atenção às denúncias contra o autoritarismo. Mas parece que os europeus não descobriram tais abusos do poder.
Outra surpresa foi descobrir que há inspetores nacionais que, sem mais nem menos, visitam as escolas. Arrogantemente, vão se sentar nas salas de aula, de prancheta em punho, anotando os erros e acertos dos professores. E pobre do mestre que barbeirar seriamente. Suas promoções tornam-se mais problemáticas. Sobre tal assunto, lembra-se haver lido que no Brasil isso seria inaceitável, uma verdadeira agressão à escola e à dignidade do professor.
Finalmente, registrou que os pobres alunos são obrigados a assistir aulas por até seis horas todos os dias. E são massacrados com intermináveis deveres de casa.
Interessado no comportamento bizarro dos professores, perguntou-lhes o que achavam de Vigotsky e de Piaget. O primeiro, não conheciam. Mas conheciam Piaget: era um excelente relógio suíço, embora muito caro. Mr Saturnino estava completamente perdido. Como era possível que os professores não houvessem se dedicado com afinco a ler as obras completas desses dois luminares? Como seria possível dar boas aulas sem tal conhecimento?
Mr Saturnino termina as visitas profundamente desapontado com as escolas européias. Fazem tudo errado. Os grandes teóricos mandam fazer, elas fazem o contrário. Está decidido, no seu relatório vai botar os europeus nos seus medíocres lugares. Tanta riqueza material e tanto atraso pedagógico, diante de um Brasil pobre, mas sábio em assuntos de educação.
Temendo a sabatina que poderia vir de algum superior ranzinza, Mr Saturnino resolve olhar um pouco os resultados das avaliações – que não são jamais mencionadas nas revistas brasileiras que leu. Há um tal SAEB, indicando que, na quarta série, metade dos alunos lê mal e entende menos ainda. O INAF indica que três quartos da população adulta é analfabeta funcional. Em uma prova internacional de 1991, o Brasil heroicamente conquista o penúltimo lugar, escapando do último, porque Moçambique estava em plena guerra civil. Mas no PISA, em 2001, o Brasil não escapa e fica em último lugar.
Em contraste, a Finlândia sai em primeiro lugar, no mesmo PISA. Inglaterra e França obtêm posições invejáveis. Como é possível? Esses europeus fazem tudo errado e terminam com os sistemas de melhor desempenho!
Nesse momento, Mr Saturnino não entende mais nada. Sua primeira dúvida é muito simples. Por que, as mentes tão portentosas e ilustradas do Brasil nunca escrevem que a educação do país obtém resultados tão pífios? Em vez disso, as discussões são sempre sobre teorias abstratas e sobre planos grandiosos para transformar radicalmente o mundo. A segunda dúvida é pouco lisonjeira para os geniais autores que leu. Se suas teorias são tão boas, por que não permitiram ao país obter melhores resultados – que mais não fosse, melhores que seus visinhos?
Coincidiu sua estada em Paris com o lançamento do Beaujolais nouveau. Sentado em uma brasserie, bebericando uma amostra da nova safra, dá voltas à imaginação. Como seria possível que os melhores resultados estivessem em uma Europa tradicional e autoritária, ainda praticando uma educação que as melhores cabeças do globo afirmavam estar irremediavelmente errada. Em contraste, o Brasil, totalmente au courrant de todas as teorias recentes, tinha uma educação pra lá de lamentável.
Auxiliado pelo Beaujoulais, vem a inspiração! O PISA e outros tais resultados eram medidas rasteiras de habilidades mecanicistas. Nada a ver com as conseqüências imensuráveis de uma educação liberadora e integral. Os testes eram uma medida apenas da qualidade da produção de ‘robozinhos’, dóceis e intelectualmente castrados. A verdadeira meta de uma educação deveria ser a criatividade e a construção do ‘homem integral’. A Europa produz robôs enquanto a boa educação produz cidadãos conscientes e criativos. Pronto. Estava resolvido o dilema.
Satisfeito, paga a conta e sai vagando alegremente pelo Quartier Latin. Por puro acaso, passa pelo Liceu Louis, le Grand, um dos melhores da França. Casualmente, pega um folheto, explicando que, no século XVIII foi necessário construir um calabouço com capacidade para 100 alunos, pois andavam muito rebeldes. Mais uma confirmação do autoritarismo das escolas.
Contudo, ao caminhar pelos bulevares, vai vendo os nomes de ruas, estátuas e monumentos. Neles se festejava a memória de escritores, escultores, pintores, atores, compositores e cientistas franceses. Eram centenas, famosos pelo mundo afora. Mr. Saturnino ficou pensando. Será que todos levaram reguadas da professora?
Nesse momento, Mr. Saturnino só tem uma preocupação: descobrir uma maneira de interceptar seu relatório sobre o Brasil, antes que seja visto pela burocracia do seu MEC.
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