terça-feira, 27 de agosto de 2013

" NO ENTANTO SE MOVE '"




O astrônomo Copérnico (1473 – 1543), ao estudar o movimento dos astros, não ficou satisfeito com o geocentrismo – a suposição (tida como saber certo na sua época) de que a Terra permanece imóvel no centro do mundo, com todos os outros astros girando ao seu redor. Por isso, elaborou sua astronomia com base na hipótese heliocêntrica de Aristarco de Samos (sec. III AC), em que o Sol é uma estrela fixa em torno da qual a Terra e os demais planetas giram. 
Viktor Emil Frankl elaborou sua psicologia em uma época dominada pela psicanálise de Freud, em que o homem era visto como um ser determinado por impulsos instintivos, como uma máquina, um autômato. Qualquer formação do eu, qualquer personalidade, era considerada o resultado de um sistema de repressões e sublimações dos impulsos. Sem negar a realidade dos impulsos, Frankl postulou a existência de um núcleo espiritual autêntico em cada ser humano (que transita pelo inconsciente e pelo consciente), capaz de decidir com certo grau de liberdade qual resposta será dada aos impulsos internos e à situação externa presentes. 
E qual a relação entre a teoria psicológica de Frankl e a revolução de Copérnico? Esta é uma bela alegoria daquela. Ao contrário do que pensávamos, a Terra não fica parada implorando diariamente para que o Sol venha lhe trazer a luz. O Sol fica parado. É ela, a Terra, quem gira, rodopia e rebola, fabricando assim o dia, a noite e as estações. Esta revolução do pensamento em busca da verdade ficou conhecida como revolução copernicana. Pode também ser chamada de revolução copernicana qualquer mudança radical no ponto de vista até então dado como certo.

A passagem da psicanálise (ou qualquer outra psicologia cientificista) a uma psicologia existencialista é semelhante ao amadurecimento do homem. Quando o homem cresce, supõe-se que ele deixe de se ver como um bebê. O bebê não pode fazer mais do que berrar e sorrir diante do que lhe é dado pelo mundo que se movimenta a sua volta, ao passo que até uma criança pode começar a agir de forma ativa e responsável diante do mundo que se lhe apresenta. 
“O que se faz necessário aqui é uma viravolta em toda a colocação da pergunta pelo sentido da vida. Precisamos aprender e também ensinar às pessoas em desespero que a rigor nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós. Falando em termos filosóficos, poder-se-ia dizer que se trata de fazer uma revolução copernicana. Não perguntamos mais pelo sentido da vida, mas nos experimentamos a nós mesmos como os indagados, como aqueles aos quais a vida dirige perguntas diariamente e a cada hora – perguntas que precisamos responder, dando a resposta adequada não através de elucubrações ou discursos, mas apenas através da ação, através da conduta correta. Em última análise, viver não significa outra coisa se não arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento.” 


A psicologia de Viktor E. Frankl altera radicalmente a posição do sujeito em relação à vida. O mais importante não é o quanto de prazer ou sofrimento a vida nos dará, mas qual a atitude, quais tarefas vou assumir diante da vida que está aí, com seus sofrimentos e prazeres. Na realidade, o sujeito deixa de ser objeto e é reconhecido como sujeito. 
Quem quiser conhecer melhor a vida e a teoria de Victor Emil Frankl deve ler o livro Em busca de sentido. O livro é composto de duas partes. A primeira parte narra a experiência do autor nos 4 anos (de 1941 a 1945) em que viveu em campos de concentração nazistas, tendo sido escrita poucos anos depois de sua libertação. A segunda parte faz um resumo de sua teoria psicológica, a que deu o nome de logoterapia. Há ainda uma conferência (A tese do otimismo trágico) em complemento à segunda parte. 
"O ser humano não é uma coisa entre outras; coisas se determinam mutualmente, mas o ser humano, em última análise, se determina a si mesmo. Aquilo que ele se torna – dentro dos limites dos seus dons e do meio ambiente – é ele que faz de si mesmo. No campo de concentração, por exemplo, nesse laboratório vivo e campo de testes que ele foi, observamos e testemunhamos alguns dos nossos companheiros se portarem como porcos, ao passo que outros agiram como se fossem santos. O ser humano tem dentro de si ambas as potencialidades; qual será concretizada depende de decisões e não de condições. 
Nossa geração é realista porque chegamos a conhecer o ser humano como ele de fato é. Afinal, ele é aquele ser que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; mas ele também é aquele ser que entrou naquelas câmaras de gás de cabeça erguida, tendo nos lábios o Pai-Nosso ou o Shemá Yisrael."

domingo, 25 de agosto de 2013

AS FLORES DO MAL


Charles Baudelaire

A QUE ESTÁ SEMPRE ALEGRE 
Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tua vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!

EMBRIAGUEM-SE
É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

O CONVITE À VIAGEM

     Minha doce irmã,
     Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
     Amar a valer,
     Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
     Os sóis orvalhados
     Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
     Misterioso e cruel
     Desse olhar infiel
Brilhando através do pranto.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

     Os móveis polidos,
     Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
     As mais raras flores
     Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,

     Tetos inauditos,
     Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
     Tudo aí à alma
     Falaria em calma
Seu doce idioma natal.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

     Vê sobre os canais
     Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
     É para atender
     Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
     — Os sangüíneos poentes
     Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
     E em seu ouro os tece;
     O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

domingo, 18 de agosto de 2013

Texto de F. Nietzsche - Assim Falava Zaratustra



 

Quem quer aprender a voar, precisa primeiro aprender a ficar de pé e a andar e a subir e dançar: a arte de voar não se aprende voando!
Aquele que ensinar os homens a voar afastará todos os limites, batizará a terra de novo como A Leve.
Quem quer se tornar leve e se transformar em pássaro deve se amar.
O homem é uma corda estendida entre a besta e o Super Homem - uma corda sobre o abismo.
É perigoso passar de um lado ao outro, perigoso ficar no caminho, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.
O que há de grande no homem é que ele é uma ponte e não um fim: o que se pode amar no homem é que ele é uma passagem e uma queda.
Por trás dos teus pensamentos e teus sentimentos, irmão, há um soberano possante e um sábio desconhecido. Ele mora no teu corpo, é teu corpo.
Há mais razão no teu corpo que na tua melhor sabedoria. Há sempre um pouco de loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.
E mesmo eu, que estou voltado para a vida, acho que as borboletas, as bolhas de sabão e o que se assemelha a elas entre os homens são o que melhor conhece a felicidade.
Ver voar essas alminhas leves, loucas, graciosas e móveis - isso dá a Zaratustra vontade de chorar e cantar.
Eu não poderia acreditar num deus que não soubesse dançar.
Agora sou leve, agora vôo, agora me vejo abaixo de mim mesmo, agora um deus dança através de mim.
Estou agora diante do meu último cume. Tenho diante de mim meu caminho mais duro. Começo minha corrida mais solitária.
Acima da tua cabeça e além do teu coração. Agora a coisa mais doce em ti deve se tornar a mais dura.
Precisas subir andando sobre ti. Mais alto, mais alto até que as estrelas fiquem lá embaixo.
Céu acima de mim, céu puro. Profundo. Abismo de luz. A te contemplar tremo de desejos divinos. Saltar na tua altura - eis o meu abismo. Ensconder-me na tua pureza, eis minha incoência.
Todo a minha vontade é só voar, voar para entrar em ti!
O belo corpo vitorioso em torno do qual tudo se transforma em espelho.
O corpo ágil, o dançarino cujo símbolo é alma feliz consigo mesma.
Toda alegria quer a eternidade, a profunda, profunda eternidade.
Assim fala a sabedoria do pássaro: Não há alto nem baixo. Lança-te para todos os lados, para frente, para trás, homem leve. Não fala mais. Canta.

Leia o Livro:



http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-503709553-assim-falou-zaratustra-friedrich-w-nietzsche-_JM?redirectedFromParent=MLB490848675

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O ABUTRE

Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava- me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.
- É que estou sem defesa – respondi. – Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.
- Mas deixar-se torturar dessa maneira! – disse o senhor. – Basta um tiro e pronto!
- Acha que sim? – disse eu. – Quer o senhor disparar o tiro?
- Certamente – disse o senhor. – É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue agüentar meia hora?
- Não sei lhe dizer. – respondi.
Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:
- De qualquer modo, vá, peço-lhe.
- Bem – disse o senhor. – Vou o mais depressa possível.
O abutre escutara tranqüilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.

Franz Kafka

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

As palavras movem; os exemplos arrastam

As palavras movem; os exemplos arrastam

Colunista: Prof. MarinsHá empresas e pessoas que se iludem ao achar que é possível realizar mudanças de comportamento em seus subordinados sem, primeiro, dar o exemplo. O velho ditado “faça o que eu mando e não faça o que eu faço” na verdade nunca teve sentido algum. A liderança eficaz tem como base o ditado latino “as palavras movem; os exemplos arrastam”, ou seja, pouco adianta falar o tempo todo sobre alguma coisa. Dê primeiro o exemplo e tudo começará a acontecer.

Conheço chefes, supervisores, encarregados, gerentes e diretores que fazem belos discursos pela ética, pela excelência no atendimento ao cliente, pela obsessão por qualidade, mas que dão exemplos absolutamente contrários aos seus discursos.
Essa incoerência entre o discurso e a prática é o maior problema das empresas e das pessoas. O descrédito delas vem justamente daí. Elas dizem uma coisa na publicidade ou mesmo em seus pronunciamentos públicos e na prática as coisas ocorrem de maneira quase oposta.
O líder deve ser um timoneiro – que não só fala bonito, grita e diz “vamos lá” -, mas aquele que em muitas ocasiões assume o comando, pega o timão e dirige o barco para locais mais seguros. Só assim terá o respeito de seus liderados.
Conheço falsos líderes que mandam fazer aquilo que jamais fizeram ou tiveram a disposição de fazer. Conheço falsos líderes que colocam seus liderados em situações de extrema dificuldade e se omitem na hora de assumir responsabilidades, isto é, de responder pela sua equipe. Conheço ainda aqueles que são “heróis de fachada” e fogem da luta quando ela se apresenta pra valer.
É preciso lembrar que a liderança eficaz só acontece através do exemplo. E esse exemplo tem que ser dado no dia a dia, nas pequenas coisas, nos detalhes do cotidiano, na forma de falar, de se expressar, de conduzir a resolução de um problema.
Avalie se você tem total coerência entre o discurso e a prática. Pense se você lidera pelo seu exemplo de comprometimento, atenção aos detalhes, respeito, ética e honestidade.
Pense nisso. Sucesso!


Fonte: As palavras movem; os exemplos arrastam | Portal Carreira & Sucesso 

Veja quais são as normas para pessoas com necessidades especiais em viagens de avião

GIULIANA DE TOLEDO
DE SÃO PAULO
Ouvir o texto
Se para quem está em plenas condições uma viagem de avião já pode ser cansativa, imagine para quem precisa de algum tipo de atenção extra, como grávidas e idosos.
A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) aprovou no mês passado uma resolução, que deve entrar em vigor em dezembro, para o transporte de pessoas com necessidade de assistência especial.
Uma das principais mudanças será acabar com a limitação do número desses passageiros --como cadeirantes-- em cada voo. Hoje, a quantidade não pode superar a metade dos tripulantes.
Pablo Mayer
DEFICIENTES VISUAIS
O cão-guia deve ser transportado gratuitamente no chão da aeronave, junto ao dono, sem obstruir o corredor.
O animal precisa usar arreio, mas é dispensada a focinheira.
É preciso apresentar identificação do cão-guia e comprovação de treinamento. A companhia não é obrigada a oferecer comida ao animal durante a viagem.
*
Pablo Mayer
CADEIRANTES
Pessoas que usam cadeiras de roda, assim como passageiros que precisam ser transportados em macas, devem embarcar por rampas ou elevadores.
A partir de dezembro, com a vigência da nova norma da Anac, será dever dos aeroportos disponibilizar esses meios de acesso. A cadeira só viaja perto do passageiro se houver espaço.
*
Pablo Mayer
GRÁVIDAS
Não há norma da Anac para viagens de gestantes.
As regras, portanto, variam entre as companhias. Geralmente, mulheres com até 27 semanas de gestação podem voar sem a necessidade de autorização médica.
Conforme cartilha do Conselho Federal de Medicina, é recomendado que, a partir da 38ª semana, a grávida só embarque acompanhada do médico.
*
Pablo Mayer
MENORES DE IDADE
Criança de até 12 anos, em voo doméstico, só pode embarcar se o adulto tiver documento que comprove parentesco de até 3º grau. Terceiros devem ter autorização assinada por um dos responsáveis. Maiores de 12 anos não precisam de autorização para viagens nacionais, acompanhados ou sozinhos.
Em embarques internacionais, caso o menor esteja com só um dos pais, é preciso autorização do outro com firma reconhecida. Para viajar com outros adultos, é preciso autorização reconhecida de ambos os pais ou responsáveis.
Até fazer 18 anos, o jovem que estiver desacompanhado em um voo internacional tem que ter autorização reconhecida de ambos os pais.
Normalmente, as empresas cobram uma taxa extra pela supervisão de crianças de cinco a 12 anos.
Segundo a Anac, o serviço é opcional e a cobrança fica a critério da companhia aérea. Na Gol e na Tam, para voos domésticos, a taxa é de R$ 100, por exemplo.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A MÃE DE TODAS AS BOMBAS

ARNALDO JABOR -     O Estado de S.Paulo

Você está andando pela rua e de repente uma imensa tempestade de luz cai sobre sua cabeça, como o sol despencando do céu. Você não sabe o que é, nem vai saber nunca porque você derreteu como um sorvete em 2 segundos. Fica um lago de seu corpo em volta de seus sapatos, enquanto a cidade inteira vira um deserto fervente, povoado por cadáveres que vagam como zumbis pelas ruas em fogo.

Falo assim para ver se sentimos no corpo o intenso horror do segundo holocausto: as bombas atômicas no Japão.

Há 68 anos, em 6 de agosto de 1945 (hoje), os americanos destruíram Hiroshima.

Enola Gay foi o nome dado ao bombardeiro B-29, que lançou a bomba atômica sobre a cidade japonesa de Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945. Foi pilotado pelo coronel Paul Tibbets Jr., então com 30 anos, comandante do 509.º Grupamento Aéreo dos Estados Unidos, que, desde fevereiro de 1945, se preparava para a missão. A fim de realizá-la, Tibbets escolheu pessoalmente um quadrimotor B-29, batizando-o com o nome Enola Gay em homenagem à sua mãe. "Enola Gay" - esse gesto de carinho filial derreteu no fogo 150 mil pessoas. Essa foi a mãe de todas as bombas, parindo um feto do demônio. Daqui a dois dias, será a vez de Nagasaki.

Todo ano escrevo sobre a bomba nessa data. Escrevo não para condenar um dos maiores crimes da humanidade, mas para lembrar que o impensável pode acontecer a qualquer momento, hoje em dia. A situação no Oriente Médio tende a um conflito entre Irã e Israel, com o corrupto Paquistão atômico ao lado da Índia, também atômica. Sem falar no chiqueiro da Coreia do Norte.

Em Hiroshima e Nagasaki, inaugurou-se a "guerra preventiva" como chamamos hoje.

Enquanto o holocausto dos judeus na Segunda Guerra fecha o século 20, o espetáculo luminoso de Hiroshima prefigura o início da guerra do século 21. O horror se moderniza, mas não acaba. Auschwitz e Treblinka ainda eram "fornos" da Revolução Industrial, eram massacres "fordistas", mas Hiroshima inventou a guerra tecnológica, virtual, asséptica. O que impressiona na destruição de Hiroshima é a morte "on delivery", "de pronta entrega", sem trens de gado humano, morte "clean", "americana". A extinção em massa dos japoneses no furacão de fogo fez em 1 minuto o trabalho de meses e meses do nazismo.

Os nazistas matavam em nome do ideal psicótico e "estético" de "reformar" a humanidade para o milênio ariano. As bombas americanas foram lançadas em nome da "Razão". Na luta pela democracia, rasparam da face da Terra os "japorongas", seres oblíquos que, como dizia Truman em seu diário:

"São animais cruéis, obstinados, traidores". Seres inferiores de olhinho puxado podiam ser fritos como "shitakes"...

A bomba A agiu como um detergente, um mata-baratas. A guerra como "limpeza", o típico viés americano de tudo resolver, rápida e implacavelmente... A bomba americana foi considerada uma "vitória da ciência".

A destruição de Hiroshima foi "desnecessária" militarmente. O Japão estava de joelhos. Diziam que Hitler estava perto de conseguir a bomba - o que é mentira. Uma das razões reais era que o presidente e os falcões da época queriam testar o brinquedo novo. Truman fala dele como um garoto: "Uau! É o mais fantástico aparelho de destruição jamais inventado! Uau! No teste, fez uma torre de aço de 60 metros virar um sorvete quente!...".

Os americanos queriam vingar Pearl Harbour, pela surpresa de fogo, exatamente como o ataque japonês três anos antes. Queriam também intimidar a União Soviética, pois começava a Guerra Fria; além, claro, de exibir para o mundo um show "maravilhoso", a superprodução em cores de um novo poder.

Na época, a bomba explodiu como um alívio e a opinião pública celebrou tontamente. Nesses dias, longe da Ásia e Europa, só havia os papéis brancos caindo na Quinta Avenida, sobre os beijos de amor da vitória. Naquele contexto, não havia conceitos disponíveis para condenar esse crime hediondo. A época estava morta para palavras, na vala comum dos detritos humanistas.

Hoje, já há uma máquina de guerra se programando sozinha e nos preparando para um confronto inevitável no Oriente Médio. Estamos num momento histórico em que já se ouvem os trovões de uma tempestade que virá. Os mecanismos de controle pela "razão", sensatez, pelas "soft powers" da diplomacia perdem a eficácia. Instala-se um progressivo irracionalismo num "choque de civilizações"; sim, sei do simplismo da análise do Huntington em 93, mas estamos diante do simplismo da realidade, formando uma equação com mil incógnitas impossíveis de solucionar. Como dar conta da alucinação islâmica religiosa com amor à morte, do Paquistão, Índia, Israel, do Irã dominado por ratos nucleares em breve, da invencibilidade dos talebans do Afeganistão, com a hiperdireita de Israel com Bibi, com o Hamas ou o Hezbollah que querem impedir o "perigo da paz"?

Agora, não temos mais a guerra fria; ficamos com a guerra quente do deserto - a mais perigosa combinação: fanatismo religioso e poder atômico. Vivemos dois campos de batalha sem chão; de um lado, a cruzada errada do Ocidente; do outro lado, temos os homens-bomba multiplicados por mil. E eles amam a morte.

"There is a shit-storm coming" - disse Norman Mailer uma vez.

A crença na razão ocidental foi ferida por dois desastres: o 11 de Setembro e a era Bush-Cheney. A caixa de Pandora que Bush abriu nunca mais se fechará.


Sente-se no ar o desejo inconsciente por tragédias que pareçam uma "revelação". Historicamente, sempre que uma situação fica insolúvel, prosperam as ideias mais irracionais, mais boçais para "resolver" o problema. Mesmo uma catástrofe sangrenta parecerá uma "verdade" nova. Como escreveu Yeats, na Segunda Vinda: "Tudo se desmancha no ar. O centro não segura a imensa anarquia solta sobre o mundo. Os homens melhores não têm convicção; e os piores estão tomados pela intensa paixão do mal".

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

"AMOR LÍQUIDO", resenha, de  Zygmunt Bauman

O autor, Zygm Zygmunt Bauman procura investigar neste livro, porque as relações humanas estão cada vez mais flexíveis, gerando níveis de insegurança que aumentam a cada dia. Os seres humanos estão dando mais importância a relacionamentos em “rede” (pela internet através de bate-papo, email ou celular através de mensagens de texto e bate-papo) que podem ser desmanchados a qualquer momento e muito facilmente, sendo que assim, sendo este contato apenas virtual, as pessoas não sabem mais como manter um relacionamento a longo prazo. E isso não acorre apenas nas relações amorosas e vínculos familiares, mas também entre os seres humanos de uma maneira geral.

Ex: Se um estranho cumprimenta outro na rua, o outro além de não responder o cumprimento, ainda sente-se estranho, talvez ofendido ou até pensa, “que pessoa esquisita”. As pessoas não se sentem à vontade na presença de um estranho, quanto mais cumprimentando alguém que não conhecem. Outro exemplo é o fato de quase ninguém ajudar um mendigo ou um estranho na rua. As pessoas têm medo, tanto por causa da violência, talvez sofrida por eles, quanto pela repercussão dos meios de comunicação que cada vez mais “apavoram” os seus usuários com notícias que envolvem apenas as coisas ruins feitas pelos próprios seres humanos. Então, como não ter medo?

Os relacionamentos em geral, estão sendo tratados como mercadorias. Se existe algum defeito, podem ser trocadas por outras, mas não há garantia de que gostem do novo produto ou que possam receber seu dinheiro de volta. Hoje em dia os automóveis, computadores ou telefones celulares em bom estado e em bom funcionamento são trocados como um monte de lixo no momento em que aparecem versões mais atualizadas. E assim acontece com os relacionamentos, não gostou, pode trocar, assim ninguém sofre. Também existem os relacionamentos de bolso, do tipo que pode-se usar e dispor quando for necessário e depois tornar a guardar para ser utilizado numa outra ocasião.

A sociedade atual está criando uma nova ética do relacionamento, os relacionamentos estão cada vez mais fragilizados e desumanos. A confiança no próximo está cada vez mais próxima de terminar definitivamente. Os seres humanos estão sendo usados por eles mesmos.

Ex: vaso de cristal, na primeira queda, quebra. As relações terminam tão rápido quanto começam, as pessoas pensam terminar com um problema cortando seus vínculos, mas o que fazem mesmo é criar problemas em cima de problemas.

A definição romântica do amor, está fora de moda. O amor verdadeiro em sua definição romântica, foi rebaixado a diversos conjuntos de experiências vividas pelas pessoas, nas quais referem-se utilizando a palavra amor. Noites avulsas de sexo são chamadas de “fazer amor”. Hoje é muito fácil de se dizer “eu te amo”, pois não existe mais a responsabilidade de estar mesmo amando, a palavra amor foi rotulada de uma forma, em que as pessoas nem sabem direito o que sentem, não conseguem definir uma diferença entre amor e paixão, por exemplo, e mesmo assim utilizam incorretamente esta palavra, que perdeu sua importância.

Como diz o autor, “Amar é querer “gerar e procriar”, e assim o amante “busca e se ocupa em encontrar a coisa bela na qual possa gerar”... não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é afim à transcendência...”

Os seres humanos têm medo de sofrer e pensam que não mantendo uma relação estável e duradoura, irão parar de sofrer ou diminuir a dor, trocando de parceiros, amigos, namorados, noivos, amantes, etc. O sofrimento e a solidão é o principal problema para as pessoas. Os seres humanos estão sendo ensinados a não se apegarem a nada, para não se sentirem sozinhos. A nossa sociedade moderna, não pensa mais na qualidade, mas sim na quantidade, quanto mais relacionamentos eu tiver, melhor, quanto mais dinheiro tiver, melhor. O consumismo é muito grande e as pessoas compram não por desejo ou necessidade, mas por impulso e isso ocorre também nas relações humanas.

Outro problema que está na sociedade atual é a insegurança. Para sentirem-se seguras, as pessoas preferem se “encontrar” pela internet do que pessoalmente, assim, quando quiserem, podem apagar o que haviam escrito, ou simplesmente “deletar” (apagar) um contato e facilmente dizer “adeus”. Para as pessoas de hoje sentirem-se seguras precisam ter sempre uma mão amiga , o socorro na aflição, o consolo na derrota e o aplauso na vitória e isso nem sempre iria ocorrer caso tivessem as mesmas pessoas ao seu lado. No momento em que o outro não lhe dá a segurança que tanto precisa, logo o mesmo é esquecido e substituído.

Pelo que pude compreender a modernidade liquida são os avanços tecnológicos que influenciam muito o ser humano em suas relações de um modo geral e o amor líquido representa justamente esta fragilidade dos laços humanos, a flexibilidade com que são substituídos. É um amor criado pela sociedade atual (modernidade líquida) para tirar-lhes a responsabilidade de relacionamentos sérios e duradouros, já que nada permanece nesta sociedade, o amor não tem mais o mesmo significado, foi alterado como algo flexível, totalmente diferente do seu verdadeiro significado de durabilidade e perenidade.

domingo, 4 de agosto de 2013

CENTRO VAI DESENVOLVER TECNOLOGIA PARA AUMENTAR ACESSIBILIDADE DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA


O Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Marco Antonio Raupp, deve inaugurar dia 20 de julho o Centro Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva (CNRTA), alocado no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI), em Campinas (SP).

O centro será o principal articulador de uma rede nacional de 25 núcleos de tecnologia assistiva (laboratórios e unidades de pesquisa) que deverão conceber tecnologias para aumentar a acessibilidade de pessoas com deficiência.

A criação do centro faz parte do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência – Viver sem Limite, lançado em fevereiro deste ano pela presidenta Dilma Rousseff. Os núcleos, em 18 estados e no Distrito Federal, estarão vinculados às universidades federais e às unidades de pesquisa do ministério. O nome das instituições escolhidas foi publicado em portaria assinada pelo secretário de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social do MCTI, Eliezer Moreira Pacheco.

No total, R$ 3 milhões do Orçamento da União 2012 já foram destinados ao centro e aos núcleos. Cada projeto poderá receber entre R$ 100 mil e R$ 500 mil. Os recursos serão transferidos para as unidades de pesquisa e universidades. Com o dinheiro, será possível comprar equipamentos e materiais necessários para a instalação dos núcleos. O pessoal que desenvolverá os projetos já é do quadro das unidades ou recebem bolsas de pesquisa do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico (CNPq) ou da Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Eliezer Pacheco salienta que o desenvolvimento das tecnologias é estratégico para o país que ainda depende da importação de alguns materiais, como próteses. Segundo ele, “mais de 50% dos produtos disponíveis no Catálogo Nacional de Produtos de Tecnologia Assistiva são importados”.

Além da produção limitada, há poucos fornecedores no país, que estão concentrados no Sul e Sudeste. “Há um número limitado de empresas, uma ou duas, no máximo, por estado nas regiões Sul e Sudeste, principalmente fabricantes de cadeiras de roda e de próteses com produção industrial ainda restrita”.

O secretário explica que há uma grande diversidade de tipos de deficiência e muitos modelos de prótese, por exemplo, são fabricados ainda de forma artesanal ou sob medida. Eliezer Pacheco espera que os núcleos se articulem e se especializem para ajudar as pessoas com diferentes deficiências. “Quando falamos de todos os tipos de deficiência, falamos de locomoção, auditiva, visual, tudo aquilo que em última análise cria limitações ao exercício da cidadania”.

Para o secretário de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social do MCTI, além do problema de desenvolvimento tecnológico, o país precisa romper uma barreira cultural. “O que se observa no Brasil é uma carência de tecnologia, mas é uma questão cultural também (…) Convenhamos que para fazer rebaixamento de calçada e rampas em escadaria não precisa de nenhuma tecnologia, mas a vontade política de fazer”, frisou.

“É necessário que haja uma mudança na cultura dos brasileiros no sentido de entender a democracia como algo muito além do direito de votar e ser votado, mas, por exemplo, tornar acessível a todos os espaços acessíveis a todas as pessoas”, lembrou.


Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a partir do Censo Populacional 2010, indicam que há 24 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência. Em outro levantamento, a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic 2009), o IBGE verificou que 53,1% das sedes das prefeituras não têm nenhum dos 16 itens de acessibilidade investigados, como, por exemplo, a rampa para cadeirantes ou aparelhos de telefone para surdos e mudos.

Convenção de Direitos da Pessoa com Deficiência da ONU: uma ameaça à Lei de Cotas?




Por Fernando Antonio Pires Montanari*

O último item do Preâmbulo da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada pela Organização das Nações Unidas, expressa o entendimento de que:

“uma convenção internacional geral e integral para promover e proteger os direitos e a dignidade das pessoas com deficiência prestará significativa contribuição para corrigir as profundas desvantagens sociais das pessoas com deficiência e para promover a participação na vida econômica, social e cultural, em igualdade de oportunidades, tanto nos países em desenvolvimento como nos desenvolvidos.”

Sem dúvida, a Convenção trouxe novas perspectivas e avanços para a questão da deficiência, sendo um dos mais importantes, o que incorpora formalmente o ambiente como fator determinante na definição de deficiência.
No entanto, em nome dessa nova definição de deficiência, incorporada à legislação brasileira com força constitucional, uma interpretação da Convenção ganha força no Poder Judiciário em sentido contrário aos objetivos de correção das desvantagens sociais e ameaçando a promoção da participação econômica e social das pessoas com deficiência no Brasil.

A interpretação jurídica que vem sendo dada à definição de deficiência expressa na Convenção ameaça um dos mais importantes e efetivos instrumentos legais de inserção econômica de pessoas com deficiência: o art. 93 da Lei nº 8.213/91, chamada de Lei de Cotas.

É histórica a resistência do empresariado brasileiro em contratar pessoas com deficiência, seja por desconhecimento, atitudes ou necessidades de adaptação do ambiente de trabalho. A Lei de Cotas tem conseguido, ao longo dos anos, vencer essa resistência.

Ironicamente, ao adotarem uma interpretação do conceito de deficiência que pretende ampliar o universo das pessoas alcançadas pela Lei de Cotas, os tribunais brasileiros caminham no sentido de permitir a contratação, dentro dos números exigidos pelo art. 93 da Lei 8.213/91, de pessoas que nunca estiveram no rol daquelas excluídas por conta de suas deficiências.

No entanto, essa interpretação, por mais respeitáveis que sejam seus defensores, parte de uma leitura equivocada das definições trazidas pela Convenção da ONU, a começar pela premissa de que não seriam mais aplicáveis avaliações de natureza médico-funcionais na verificação do cumprimento das contratações estipuladas pela Lei de Cotas.

Não é isso que se extrai do texto da Convenção. Pelo contrário, nos conceitos trazidos pela Convenção, fatores sociais e médico-funcionais são complementares e indissociáveis na manifestação da deficiência.
Logo no Preâmbulo, letra “e”, a Convenção diz:

“e. Reconhecendo que a deficiência é um conceito em evolução e que a deficiência resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras devidas às atitudes e ao ambiente que impedem a plena e efetiva participação dessas pessoas na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas;”

Mais à frente, no artigo 1º:

“Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas.”

Portanto, a Convenção introduz no conceito de deficiência o fator social reconhecendo-lhe papel o papel chave na manifestação da deficiência. Reivindicação antiga dos movimentos sociais de pessoas com deficiência, o reconhecimento do meio social como fator de limitação da inclusão social atenua o foco colocado sobre a pessoa pelas antigas definições, as quais se restringiam à caracterização da deficiência a partir das limitações individuais em contraponto com o ambiente, ou com algo como um chamado “padrão normal”.

Não obstante, essa ampliação rumo ao fator ambiental não pode fazer perder de vista a existência de características pessoais essenciais na definição daqueles que são o alvo das políticas de ação afirmativa.
E, efetivamente, a Convenção trata a deficiência como um fenômeno cuja manifestação requer dois conjuntos de fatores em intersecção.

Primeiro, existem as características individuais, traduzidas em limitações, impedimentos, disfunções, que algumas pessoas apresentam e que as distinguem dos demais na interação social.
Em segundo lugar, existem as condições ambientais, materiais e atitudinais, que representam barreiras para que aquelas pessoas, que pertencem ao primeiro conjunto, atuem em seu ambiente social em igualdade de condições.
Na manifestação da deficiência, os dois conjuntos de fatores devem estar presentes concomitantemente, sem o quê, o fenômeno não se materializa. No entanto, o primeiro, que reúne as pessoas, tem precedência lógica sobre o segundo. Sem as limitações individuais não há sentido em se falar em barreiras ambientais.

Tanto é assim que o artigo 1º da Convenção, ao expressar o conceito de pessoa com deficiência, primeiro vetor do fenômeno da deficiência, assim se expressa:
“Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial (…).”

O destaque do trecho acima é importante por evidenciar que as características pessoais são parte essencial no âmbito da problemática da deficiência e não desaparecem com a importância dada ao ambiente.
Nos termos acima, os impedimentos físicos, mentais, intelectuais e sensoriais caracterizam a existência do que podemos chamar de deficiência individual. São assim porque são indissociáveis do indivíduo, independentemente do ambiente. Por suas naturezas, essas características devem ser definidas e verificadas por critérios medico-funcionais, particularmente quando se trata da concessão de benefícios ou direitos previstos em lei.

A validade das definições utilizadas pela legislação brasileira, especialmente pela Lei de Cotas, tem sido questionada por se basear em critérios médicos, quando, segundo uma corrente de pensamento, a Convenção passou a definir a deficiência somente a partir do ambiente social. A partir desse ponto de vista, toda e qualquer característica pessoal que, em interação com o ambiente laboral, venha a produzir obstrução de participação social, tornaria o indivíduo elegível para ocupar uma vaga de trabalho no âmbito do art. 93 da Lei nº 8.213/91.

Em uma mudança de cento e oitenta graus na orientação anterior, o entendimento acima resumido deixa em segundo plano a deficiência individual para se ater, exclusivamente, aos fatores sócio-ambientais. Todos fariam jus à inclusão pela ação afirmativa, bastando para isso que enfrentem alguma barreira para sua inserção no mercado de trabalho. Isso independentemente de apresentarem algum tipo de impedimento de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, nas palavras da Convenção.

Essa interpretação que, como dito no início, ganha força na jurisprudência brasileira, põe em risco os avanços conseguidos na inserção das pessoas com deficiência no mercado de trabalho, na medida em que permite que empresas não ofereçam vagas a pessoas com deficiência cuja contratação implique a realização de adequações ambientais custosas, assim como de mudanças de atitudes que revertam a exclusão social.

Se todo e qualquer “impedimento” permite que uma pessoa ocupe uma das vagas reservadas pela Lei de Cotas, e considerando o histórico de resistência à inclusão das empresas brasileiras, a tendência é de que sejam contratadas somente aquelas que mais se aproximarem do ideal social de “normalidade”. A atitude retoma uma realidade de exclusão dos demais e fere de morte os objetivos da Lei de Cotas e o espírito da Convenção das Nações Unidas.
O Poder Judiciário brasileiro, que sempre se posicionou no sentido da garantia dos direitos sociais e individuais, não pode adotar uma interpretação que, sob a capa de ampliação de direitos, revela-se uma armadilha mortal contra a Lei de Cotas e a inclusão econômica e social das pessoas com deficiência, que tem sido alcançada com sua aplicação.

*Servidor Público Federal, Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP, ex-presidente do Conselho Municipal de Atenção às Pessoas com Deficiência e com Necessidades Especiais de Campinas, no período 2001/2002